Pessoas de verdade, problemas de verdade
Sei que ninguém é igual. Mas alguns são menos iguais que os demais. A maneira com que organizo minhas idéias não é algo muito fácil de se explicar. Se parece um pouco com o sistema exotérico pelo qual você encontrará minhas cuecas espalhadas por várias partes dos armários localizados em dois quartos de minha casa. Leia o Restante
Adestramento cristão
Crente é um bicho estranho. Você grita “AMÉM?” e ele responde gritando o mesmo. Se perguntar pela segunda vez, ele responderá mais alto. Se no meio do louvor você gritar “pule na presença do Senhorrrrrrrr”, então eles pulam. Se você dançar de modo estranho, verá correspondência imediata nas pessoas.
Sua linguagem é facilmente influenciável por jargões. Basta pegar qualquer expressão bíblica cujo significado seja obscuro para a maioria, e pronto! Também colam as expressões inventadas que possuem aparência de espiritual, como por exemplo “ato profético”. Difícil de crer que nem existe esta expressão na Bíblia né?
Facilmente também estereotipamos outras coisas que fazem do crente um ser quase alienígena: os lugares que frequenta, o conteúdo de suas conversas e a aversão às coisas “do mundo”.
Pena quem os crentes não são condicionados a obedecer a todo tipo de “comando”. Parece que o adestramento a que foram submetidos possui limitações. Nem todos aceitam sugestionamentos que os levem a renunciar a seus interesses; ou dividirem suas posses com os necessitados; ou mesmo disponibilizar tempo para aqueles que estão abandonados em asilos, orfanatos e nas ruas.
Ah… antes que eu me esqueça, quero deixar claro que amo os crentes. E exatamente por ser um deles é que me incomodo tanto com estas coisas incompreensíveis que aceitamos passivamente em nossa conduta.
Que venha a perseguição!
Bom mesmo é quando a igreja é perseguida a ponto de não poder alugar um prédio. Pra começar não ficamos preocupados durante todo o mês com a arrecadação de dízimos e ofertas. Não haveriam despesas fixas tão asfixiantes. Não seria preciso usar Malaquias fora de contexto para forçar as pessoas a ofertarem por medo do devorador.
Não incomodaríamos nossos vizinhos com os ensaios do louvor. Não teríamos a “dona Maria” reclamando todos os sábados a noite do barulho bem na hora do Jornal Nacional. E o pior é que eles tem razão em reclamar. “Graças a Deus” eu não moro vizinho de minha própria igreja. Deve ser muito bom poder louvar a Deus apenas com sussurros. Não sei se a maioria das pessoas já parou para imaginar que isso é totalmente possível.
Bom mesmo é quando não precisamos investir em decoração e multimídia valores exorbitantes e muitas vezes superiores ao que gastamos com pessoas. É muito bom quando precisamos que cada um traga uma cadeira de casa. É muito bom quando somos poucos e não é necessário ar-condicionado. Basta ligar um ventilador, ou mudar o culto para outro local mais fresco.
Bom mesmo é quando não podemos pagar a ninguém para ficar por conta do “rebanho”. Todos compartilhariam da responsabilidade de cuidar de seus irmãos. E se algum irmão for “separado” para a dedicação exclusiva no ministério, poderíamos compartilhar com ele apenas suas necessidades básicas e na medida de nossas possibilidades. Cada prato de comida teria um sabor especial para quem o recebe. Seria muito diferente de poder comprar sua própria comida. Servir ao ministério seria de fato um ato de renúncia.
Bom é quando não podemos usar microfones e, então, precisamos falar do evangelho no mesmo volume dos ouvintes. Então a pregação se torna viva e participativa. Acabam-se as circunstâncias em que ficamos horas e horas seguidas ouvindo alguém falar de cima de um palco. Se não conseguimos prestar atenção em quem berra num microfone, é por que o assunto deve ser realmente desinteressante. Mas por que será que preferimos culpar as pessoas ou o “espírito de distração” por nossa irrelevância?
Bom é quando nossa casa não pode ser referência de reunião, sob risco de sermos presos. Bom é quando nossa vida não pode se tornar referência de conduta, sob risco de sermos mortos. Fica tão mais fácil discernir quem é ou não discípulo de Jesus. Poucos se arriscariam fingindo ser crente sob o risco constante de ser perseguido. Não seria necessário gastar palavras em pregações combatendo a religiosidade do povo.
Bom mesmo é ser crente em países muçulmanos.
Eu disse que estas coisas todas são boas. Não disse que eram fáceis!
A virtude em xingar alguém
Domingo, enquanto dirigia o camburão para a igreja, refletia sobre o quanto se tornou inconveniente utilizar alguns palavrões para expressar idéias e sentimentos em meus textos. O tal “Espírito de Pastor”, bem citado no blog do Sandro Baggio, pressiona todos aqueles que estão diretamente envolvidos em funções pastorais a renunciar o uso de expressões chulas e ofensas dirigidas diretamente a pessoas.
Claro que, devido à exposição pública que todos os envolvidos no ministério possuem, não seria prudente criar polêmica defendendo o uso de palavras frívolas (Mateus 12:36). Mas muitas vezes vejo que ao utilizamos outros elementos lingüísticos para contornar tais limitações geradas pela expectativa que outros possuem a nosso respeito, cometemos assassinatos morais muito piores do que o uso de um simples “vai se f****”. Xingar não seria o correto. Mas às vezes poderia ser menos danoso. Há virtude em quem compreende isto!
A ironia é um dos artifícios lingüísticos comuns que mata mais do que xingamentos. Aquele que xinga, deixa explícito quais são suas intenções e sentimentos. Não está preocupado em ter a razão. Xingar é deixar claro que a emoção está momentaneamete falando mais alto do que a razão. Mas aquele que se utiliza da ironia, recusa-se terminantemente a reconhecer sua falibilidade. Esta presunção de estar certo, além de geralmente deixar cadáveres espalhados por todo o caminho, também contamina o próprio coração.
Questiono o que seja “vencer” uma argumentação quando o debate culmina no extermínio do outro. Não seria mais prudente às vezes perder propositalmente, deixando explícito que a unidade do Espírito no vínculo da paz é mais importante que qualquer outra coisa? Tenho a convicção de que jamais nos foi exigido concordar em todas as questões, pois obviamente Deus não concorda com boa parte das coisas que o melhor de nós pensa e, mesmo assim, não o descarta.
Na dúvida, prefira expor sua ira, para que ela possa ser verdadeiramente momentânea.
“Irai-vos e não pequeis; não se ponha o sol sobre a vossa ira, nem deis lugar ao diabo.” (Efésios 4:26-27)
Andando nu
Em São Paulo, durante um período em que decidimos sair para jantar no Outback, fiquei surpreso com a reação de um “irmão” que questionava se eu iria mesmo ao restaurante de chinelos, bermuda e sem tomar banho. Obviamente todos os argumentos em favor das vestimentas especiais eram baseadas na comparação com como as pessoas lá irão estar vestidas.
Questionei se seria necessário trajar roupas especiais para ir à igreja. Obviamente a resposta foi que não. Podemos ir livremente do jeito que nos sentirmos mais confortáveis ao culto. Mas ao restaurante, parece que nossa aparência é mais importante.
Não sou um defendor da maneira adequada de se vestir em um culto. Mas não consigo entender por que importaria aos demais a roupa que eu utilizo quando vou a um restaurante. Se eu estou pagando tanto quanto os demais (se é que eu não estou pagando MAIS do que os demais, pois a maioria está apenas ocupando cadeiras lá), por que importaria qual roupa visto?
Após a queda de Adão no Éden, o homem percebeu sua nudez. E imediatamente procurou folhas de figueira para cobrir sua nudez. Mas curiosamente o último Adão (que é Cristo), nos libertou destas folhas. Nos tornamos livres pra olhar as pessoas além de suas roupas, posses e beleza (ou ausência dela). Aprendemos que diante de Deus estamos todos nus. Portanto não há muito do que “contar vantagem” diante dos demais, pois não estamos em posição mais confortável. E nem podemos considerar alguém inferior a nós mesmos.
Quando estamos nus, salvo sutis detalhes anatômicos, somos todos iguais.
Atitude subversiva
Hoje, enquanto eu estava parado em um semáforo, percebi alguns stickers colados no poste. Mensagens supostamente subversivas, coladas em um lugar onde eu aposto que a grande maioria jamais perceberá. Prestando um pouco mais de atenção nas ruas, percebo uma proliferação de manifestações artísticas independentes, como uma tentativa de criar uma consciência coletiva a partir de mensagens transmitidas por métodos considerados subversivos. Então me perguntei: o que de fato vem a ser “subversivo”?
Segundo a Wikipédia:
O termo subversão está relacionado a um transtorno, uma revolta; principalmente no sentido moral. A palavra está presente em todos os idiomas de origem latina, e era originalmente aplicada a diversos eventos, como a derrota militar de uma cidade.
Já no século XIV era usada na língua inglesa com referência a temas de direito e no século XV começou a ser usada relacionada a reinados. Esta é a origem de seu uso moderno, que se refere a tentativas de destruir estruturas de autoridade, enquanto subversão se refere a algo mais clandestino, como erodir as bases da fé no status quo ou criar conflitos entre pessoas.
Eu, como defensor das formas alternativas de expressão, sempre simpatizei com métodos alternativos de mídia. Stickers, lambe-lambe, grafite, pixação, cartazes, etc. Mas o que hoje me incomoda é a total e completa falta de CAUSA por parte daqueles que praticam tais expressões artísticas.
Subversiva não é a arte em si. Mas a incapacidade de tais pessoas de lutar por uma causa coerente. A subversão se apresenta como a deprimente tentativa de aparecer a qualquer custo. Não importa mais a opinião do próximo. Nada importa mais do que ser “diferente”. São pessoas que demonstram uma cegueira para o que vem a ser o Reino da Luz, pois estão deslumbradas demais com o aspecto subversivo do império das trevas.
Adoro a liberdade de expressão. Mas o que de fato é inspirador? E o que não passa de pura vaidade?