A melhor maneira de…
Estou cansado de conselhos que visam censurar meu consumo de carne. Ou de margarina. Cerveja. Refrigerante. Gasolina. Água. Estou farto de dicas sobre como devo me organizar. Fazer agenda. Lista de tarefas. Educar meus filhos. Tratar minha esposa. Sinto pena desta geração, perdida em meio a sonhos empacotados a vácuo pelos seus pais. Escola. Enem. Vestibular. Faculdade. Carreira.
A vida resume-se exclusivamente a isto? Leia o Restante
Empregado? Prostituta!
Que valor tem as pessoas? O salário do empregado só é igual ao do patrão se este souber fazer algo que o patrão não saiba. Portanto dificilmente encontrará sinceridade no discurso dos empregadores ao dizerem que preocupam-se com a qualidade de vida das pessoas. A verdade é que preocupam-se mesmo apenas em como aumentar a produtividade do trabalho alheio.
O salário de um pastor-presidente é quantas vezes maior que o da faxineira da igreja? E quem trabalha mais? Este tipo de pergunta dificilmente é bem vinda. Somos um povo que possui garras afiadas para apontar as injustiças dos políticos, porém igualmente avessos à justa prestação de contas. Mas como replicar o ensino de que devemos nos envolver financeiramente nos desafios empreendidos pelas instituições religiosas se muitas vezes nem nós mesmos acreditamos neles?
Emprego é um tipo de prostituição. Fingimos satisfação para o patrão pensar que está valendo seu dinheiro gasto. Já o emprego na igreja pode ser duas vezes pior. Claro que em todo lugar há exemplos vivos de pessoas que derramam sua vida em favor do serviço (arte de servir). Só que infelizmente a grande maioria prostitui-se para sobreviver. E nós na maioria das vezes somos coniventes com isto. Não se pode desconsiderar que sacrificar-se por pouco sempre será mais difícil que sacrificar-se por muito. Podem distorcer o quanto quiserem o ensino de que passar camelos pelo fundo de uma agulha é algo viável em “seu caso”. Mas a indiferença dos que insistem em afirmar que isto pode ser feito tão facilmente, está refletida na história daqueles que todos os dias são injustiçados na divisão das “ofertas”. Partilhar segundo as necessidades? Este trecho está fora de moda.
“‘Trabalhador” é aquele que está mais preocupado com o resultado de seus esforços do que com os benefícios que obtém dele. Porém indiscutivelmente é mais fácil ser aquele que faz os próprios salários. Seja na iniciativa privada, ou na iniciativa eclesiástica.
Me pergunto se, de todos os “recursos” depositados aos pés dos apóstolos para que se exercessem justiça social, eles primeiramente separavam sua porção. Talvez eu tenha compreendido errado, mas parece que o povo sentiu-se compelido a ofertar por verem nos discípulos de Jesus o exemplo. Exemplo… coisa fácil de citar… e difícil de mostrar nos dias de hoje.
De toda sorte de “posições” existentes na igreja do primeiro século, claramente distinguimos duas importantíssimas: os que se dedicavam à palavra de Deus… e os que se dedicavam ao serviço. Curiosamente há mais pré-requisitos para os que seriam escalados para o tal diaconato do que para o ensino da palavra. Os mestres precisavam ser homens íntegros, exemplares e que dominam bem a palavra. Porém os diáconos precisavam ser também BONS ADMINISTRADORES. Assim, aqueles que ocupavam os púlpitos preocupavam-se apenas em serem bons “trabalhadores”. E igualmente usufruiam das ofertas segundo a medida da necessidade, idoneamente avaliadas pelos homens do serviço.
Penso que prostituição, a grosso modo, é pagar por aquilo que deve ser de graça.
A palavra de Deus diz que aquele que se prostitui, peca contra o próprio corpo. Portanto sexualmente ou ideologicamente, aqueles que se vendem em razão de obterem dinheiro para satisfazerem os desejos de seus ventres, inevitavelmente sofrerão as mesmas consequências.
Aos tais, alerto que abandonem suas práticas abomináveis, arrependam-se e vivam dignamente o caminho que leva à eternidade. E o que passar disto, é mentira.
Diante de tantas palavras duras, concluo: continuaremos nos prostituindo? E continuaremos a consumir o esforço alheio sem o justo pagamento? Não basta dizer “eu não estou envolvido nisto”. É preciso protestar, exigir, interferir. Os omissos são igualmente responsáveis e prestarão contas disto no devido tempo.
Parábolas do século XXI
A figura de Cristo ao expor determinada história através de uma parábola, representa a tentativa de levar indivíduos incapazes de compreenderem uma realidade totalmente lógica e racional, a experimentarem novos pontos de vista, frequentemente perdendo o rumo de suas vidas e abalando suas convicções mais profundas.
Ao contrário do que preferimos adotar como método “perfeito” de ensino das verdades eternas através da “exposição sistemática” da palavra de Deus, o próprio Messias utilizava maneiras totalmente avessas ao nosso doutrinamento teológico. Simplesmente sacudia ao mais sábio dos homens ao propor de forma totalmente fantasiosa e figurativa, uma verdade que é absoluta. Este tal de Jesus era o mestre da pedagogia que mexe com as pessoas.
Imagine quantas cenas passaram pela cabeça de Nicodemos segundo João 3 ao concluir que, se conforme as palavras do mestre, era necessário nascer de novo, então obviamente seria indispensável que ele, mesmo sendo velho, entrasse novamente para dentro do ventre de sua mãe para poder nascer de novo. Sim meu amigo. Ele imaginou a pobre senhora sua mãe de pernas abertas, enquanto ele calculava como seria possível adentrar a vagina da pobre velha.
Como pode um homem considerado um sábio em sua época, perder-se totalmente em meio a uma proposição tão simples de Jesus? Pois afirmo que este homem foi incapaz de viver enquanto de si não vomitou desesperadamente a pergunta que traria sua segurança de volta. Ele precisava da resposta mais do que do ar que respirava.
Será que temos sido aqueles que têm contado as parábolas do século XXI? Na iminência do pensamento pós-moderno, ainda há uma carência imensa dos verdadeiros pregadores, que falam com as pessoas na linguagem que elas entendem. E que fazem proposições que as levam ao céu, com todas as cores, sons e aromas.
Esta não é uma geração apática ao evangelho. Nós é que temos sido incapazes de mostrar as belezas da eternidade que já começou.
Por que refletir sobre todas esta coisas? Por que neste seu céu todo branquinho e silencioso, nem eu quero entrar.
Simplicidade idiota
Me admira que pessoas prefiram categorizar a vida de modo tão radical e simplista. Como se fôssemos amebas, limitadas a uma constituição unicelular ridícula e totalmente compreensível. Ignoramos até mesmo as complexidades sentimentais e, por isto, frustramos a outros e a nós mesmos na tentativa de encontrar modelos de conduta verdadeiramente aplicáveis na vida prática.
Tentamos fazer do evangelho uma série de regras em que podemos acertadamente dizer “isto é certo” ou “isto é errado”. Como se a vida dada por Deus pudesse ser reduzida a meros erros e acertos. Como se as complexidades de nosso ser tivessem fugido ao controle do Criador.
Apenas a VERDADE pode nos libertar por que ela revela quem somos e o quanto somos incapazes de encontrar uma auto-redenção. Apenas renunciando até à capacidade de acertar, seremos encontrados aptos a genuinamente vivermos a nova vida em Cristo. Aquele que desistiu de não errar, encontra-se na situação ideal e preferida do Redentor.
Mais do que apenas abandonar as velhas práticas, a fé operosa será caracterizada como aquela que possui seu foco em SER aquilo que Cristo diz que devemos ser. Apenas isto.
Aqueles que insistirem em simplificar os processos, concentrando seus esforços na luta contra as práticas da carne, inevitavelmente se frustrarão. Pois a carne sempre vencerá. Não se pode combater fogo com fogo. Por isso, esta é uma luta perdida.
Pra exterminar o fogo, deve-se primeiramente encontrar uma fonte suficiente de água. Pra um fogo incontrolável, uma fonte inesgotável.
Em cada nuance de nossa miséria, complexidade, sentimentos e angústias; em cada pequeno detalhe, podemos sentir a inspiração do Criador. Em cada gole, em cada respiração. Em cada segundo, a eternidade. Em cada detalhe, o infinito.
Consegue sentar-se com amigos verdadeiros de frente à praia e não sentir-se em casa?
Consegue perceber que há amigos recentes que parecem ser velhos conhecidos?
Consegue ouvir Coldplay e não sentir Deus?
Será que o evangelho realmente o tornou livre o suficiente para que possa compreender o que estou tentando dizer?
Onde estão os sonhos
Há uma crise de identidade generalizada em pleno século XXI. Talvez isto explique o porquê da constante decepção de todos aqueles que baseiam suas convicções sobre sua própria vida em comparações. É como se tivéssemos nos esquecido de que somos todos diferentes. E portanto, sonhos alheios podem nos inspirar, mas não são necessariamente nossos sonhos.
O foco daqueles que tem difundido o ensino herético do pensamento positivo e da prosperidade como vontade de Deus, é a expropriação dos sonhos. É como se você não precisasse sequer avaliar se de fato as coisas boas que estão sendo prometidas realmente são aquelas que irão fazer sua vida fazer sentido. O misticismo vence o autoconhecimento.
Peguei carona nos sonhos de outras pessoas dezenas de vezes. E isto nunca foi necessariamente ruim. Sonhos alheios momentaneamente me ensinaram muitas coisas. Mas chega a hora em que torna-se necessário aprender a sonhar por si mesmo.
Também dá pena daqueles que se conformaram com os sonhos enlatados. Carros, casas, dinheiro, faculdade, trabalho… como se estas coisas pudessem preencher o vazio que há dentro de cada ser humano.
Proponho a estes o exercício Tyler: saia na rua, provoque uma briga com completo estranho… e perca. Verá que provocar uma briga é algo relativamente fácil. Mas perder, nem tanto.
Quem ainda não aprendeu a perder, não está pronto para vencer. Quem não sabe sonhar, jamais irá experimentar uma vitória autêntica.
Adubando o joio
Às vezes nos vemos lutando contra circunstâncias sem avaliarmos quais as vantagens em fazê-lo. Por que há tantas questões urgentes que preferimos convenientemente não abordar, enquanto insistimos em levantar bandeiras contra outras?
Algumas realidades que estão próximas, como por exemplo a proibição de manifestações de idéias que sejam contrárias ao homossexualismo, soam no mínimo interessantes em meu ponto de vista. Nossa conduta enquanto cristãos está tão manchada, que a sociedade simplesmente prefere ignorar nossas opiniões. E está difícil não dar razão à sociedade sobre os que se dizem cristãos.
Desobediência civil era uma prática comum nos anos 60, onde principalmente os hippies, demonstravam suas insatisfações com os valores estabelecidos. Ficava explícito quem era verdadeiro (true) e quem não era. Mas depois do mundo dar tantas voltas, em pleno século XXI, preferimos aceitar totalmente o “programa” instalado na mentalidade coletiva. Parece razoável acreditar que só há dois tipos de pessoas: os justos e os criminosos.
Naturalmente concluo que algumas destas pressões sociais para criação de leis que vão contra a genuína fé cristã serão muito produtivas, embora pouco agradáveis. Funcionarão como adubo para joio. Não importa se o joio irá crescer mais que o trigo. Importante mesmo é que no final seja possível separar perfeitamente quem é o que. Inevitavelmente será facílimo descobrir onde estarão os verdadeiros cristãos. Aqueles que quiserem ouvir a palavra de Deus, deixarão de ir às igrejas e se dirigirão às penitenciárias.
Quem sabe através da reavaliação individual e coletiva de nossas motivações, seremos capazes de influenciar o mundo através de nossas práticas. Curiosamente preferimos trabalhar ao contrário na maioria das vezes. Se a conduta de alguém está alinhada com os preceitos moralmente aceitáveis, então tal pessoa é dita “sem problemas”. As demais questões, referentes aos pensamentos, à fé e demais convicções pessoais, preferimos que sejam sufocadas. O que importa mesmo no final é a conduta. E assim criamos uma geração de seguidores da “nova lei”. Esta nova lei, embora baseada superficialmente nos mesmos textos bíblicos que fundamentam a graça, está mais para DESGRAÇA.
Analisando a vida dos grandes homens da bíblia, curiosamente não há um sequer (com excessão de Cristo), que seria considerado apto para o ministério pastoral segundo os critérios explicitamente desejáveis nos dias de hoje. Os grandes heróis bíblicos possuem manchas enormes em seus currículos. E Deus, em seu incrível senso de humor, enfatiza cada um dos defeitos de conduta no texto. Porém, todos os justificados, possuem uma mente, uma fé e todas as demais convicções pessoais apontando para a eternidade.
Jesus e o “foda-se”
Eu sei que não devo ficar ansioso por causa de nada e blábláblá. Sei também que os cuidados deste mundo não podem sufocar a minha fé. Mas será que Jesus teve que passar pelo mesmo sofrimento desnecessário que muitas vezes passamos? Este não é um rascunho de idéias sobre fé, mas sobre motivações.
Não acredito que a vida seja tão difícil quanto alguns afirmam. Na verdade tudo pode ser simples e até divertido às vezes. O problema geralmente está na abordagem que preferimos utilizar para definir o que devemos ou não priorizar. Por exemplo, sinto que embora meus valores continuem intactos, ao priorizar atividades moralmente corretas dentro da vida eclesiástica (do tipo “todo mundo faz assim”), acabo por sabotar a mim mesmo. Não é que não acredito no trabalho em si. O problema é um pouco diferente. Na ânsia de atender às cobranças efetuadas através de métodos de gestão empresarial, acabamos por dar um tiro no pé de tanta preocupação em cumprir prazos, preencher planilhas, organizar agenda, fazer lista de tarefas, responder e-mails, participar de reuniões e principalmente prestar contas formalmente. E não tem jeito. Ou você se enquadra, ou dança.
Aí fico pensando na atitude de Jesus ao criticar todo o sistema. Parece que não preocupou-se tanto com a carreira rabínica e com a eficácia de “transformar” as coisas de dentro pra fora. Ele simplesmente apertou o botão do “foda-se”, disse o que precisava ser dito e fez o que precisava ser feito. Virou as costas pra “unidade”, mesmo tendo afirmado que, embora as práticas tornaram-se nulas, o ensino farisaico ainda estava correto.
Imagine um homem que tem grandes inimigos em potencial, capazes de lhe causar muitas dores. Para prevenir-se contra todo sofrimento, julgou ser prudente traze-los para perto de si, em seu círculo de relacionamento. Através de uma amizade sincera, evitaria com que as ações destas pessoas pudessem se tornar destrutivas a ponto de atingí-lo. Teoricamente a intenção está absolutamente correta. Mas não seria esta atitude mais uma maneira intencional de exercer controle sobre as situações?
Ainda tento entender como é possível conviver com esta dualidade de possuírmos um espírito livre e ao mesmo tempo sermos escravos uns dos outros. Às vezes penso que a expressão “escravos uns dos outros” na verdade seja uma metáfora para fugirmos de toda forma de controle e ao mesmo tempo nos submetermos a todos os que não tentem nos controlar. O difícil é discernir a verdadeira sinceridade.
Enquanto as coisas não se esclarecem, vou criar uma listinha de 10 coisas importantes a se fazer para sobreviver:
- Concentre-se em Deus. Ele é mais importante que as pessoas.
- Preocupe-se com as pessoas. Elas são mais importantes que as instituições.
- Preocupe-se com si mesmo. Se não estiver bem, não vai prestar pra nada.
- Insista em amar as pessoas verdadeiramente. Isto é um exercício mais difícil que musculação.
- Converse com as pessoas que não esperam sua atenção. Principalmente os invisíveis (tipo mendigos).
- Divida tudo. Sem excessões. Dê 50 reais pro vigia do carro. Chame alguém na rua para lanchar.
- Desista de ter resposta para todas as perguntas. Entenda a importância de dizer “não sei”.
- Beba devagar. Sinta sua vida medíocre em cada gole.
- Seja grato.
- Aprenda a andar com o botão do “foda-se” apertado. Às vezes funciona bem.
Ensaio sobre por que devo me tornar um fora-da-lei
Igrejas, TVs, jornais…
Tive o desprazer de folhear o pobre jornal da cidade de Uberlândia. Dá pra imaginar a decadência de um jornal único numa cidade com mais de 600 mil habitantes? O nível editorial é inferior a 99% dos blogs que leio rotineiramente na internet. Mas de todas, a sessão de “cartas do leitor” é minha parte menos preferida. Revela claramente a ignorância dos professores, bacharéis de direito, aposentados e comerciantes que, insistentemente, enviam e-mails com comentários que beiram o ridículo.
Ontem, conversando com minha irmã, falávamos sobre as pessoas “de verdade”, que estão diluídas e apagadas em meio às multidões. Afirmava que passou momentaneamente por sua cabeça a possibilidade de um dia se candidatar a algo para, quem sabe, fazer mais por estas pessoas.
Confesso que considerei isto uma ótima motivação. Mas será possível mudar as regras do jogo, participando dele? Às vezes fico em dúvida sobre se estamos jogando Ludo ou Poker. Parece que alguns podem mentir, enquanto outros são punidos severamente caso tentem fazê-lo.
Igrejas, TVs, jornais… qual a diferença? Há milhares de consumidores de suas linhas editoriais enquanto poucos possuem a autonomia de criar temas. E independente da motivação destes “redatores”, é preciso tomar muito cuidado para não tocarem em algum ponto sensível demais, que ofenderia os proprietários dos meios de comunicação. Danem-se as pessoas de verdade e suas necessidades reais. O que importa mesmo é oferecer entretenimento, comprovadamente a melhor ferramenta de controle já inventada.
Um dia uma costureira negra teve coragem de não se levantar no ônibus para que um branco se sentasse. Ela foi presa, julgada e condenada por sua desobediência civil. Mas sua atitude “criminosa” deflagrou uma série de protestos que culminou com o fim da preferência de assentos. Motivados com a atitude da humilde costureira, Martin Luther King Jr mobilizou um boicote geral ao transporte público. Aquela mulher ousou quebrar as regras, por que se cansou de ter sua realidade decidida por dados viciados. Ela fez pelas pessoas “de verdade” mais do que a maioria de nós irá fazer em toda a vida, ora confrontando, ora contornando as regras estabelecidas.
Quero reaprender a pensar fora do quadrado, fora das regras, fora dos mandamentos, fora das profecias e principalmente fora da lei. Quero uma vacina que me imunize das opiniões “editoriais” interesseiras.
E espero ansiosamente morrer com a bala que foi preparada para mim.

Mentiram pra você a vida inteira
Disseram pra você que era preciso ser um bom menino, caso contrário você não iria entrar no céu. Disseram que se dedicar aos estudos era importante e que seu futuro dependia disto. Disseram que você precisava ser referência entre os alunos… do pré-primário à universidade. Disseram que era preciso ser uma boa pessoa. Que deveríamos pensar no “próximo”, ajudar os pobres e doar cobertores no inverno. Disseram que Deus se agrada da nossa adoração… só se esqueceram de dizer que toda essa baderna repetitiva que fazemos não é adoração. Disseram que a prosperidade era sinal de que a mão de Deus está a nosso favor. Disseram que Deus queria nos fazer ricos e bem sucedidos. Disseram que seríamos felizes… basta continuarmos trabalhando calados.
Mentiram para nós por toda nossa miserável vida. Mentiras em cima de mentiras. Mentiram na escola quando disseram que o heliocentrismo substituiu o geocentrismo. Tudo isso é besteira pura! A verdade é que nem o sol e nem a terra jamais foram o centro do universo. O verdadeiro centro sempre foi o umbigo do ser humano. Creio em uma teoria umbigocentrista.
Enquanto tudo aparentemente aponta para o interesse coletivo, na realidade quase sempre possui motivações umbigocêntricas. Queremos encher nosso ventre, alimentando nossos interesses antes de qualquer coisa. Ou então queremos aliviar nosso ventre, expelindo nossas desgraças pelo caminho.
Não alimento a ilusão de que o cristianismo seja a resolução definitiva e instantânea de nossos problemas. A verdade nos liberta à medida que revela nossa natureza. E nos transforma à medida que nos faz menos dependentes da obediência ao nosso próprio umbigo. Então, uma vez no caminho que leva ao Reino, deveria ser natural que nos despojássemos de nossas hipocrisias e mentiras umbigocêntricas. Afinal, não há problemas em ser imperfeito. Problema mesmo é fingir que está tudo bem. Problema é replicar o ensino de que santidade está mais para “uma virtude” do que para “um caminho”.
Estou cansado de mentiras. Quero minha liberdade de volta. Quero me despir de toda aparência moral, para que o verdadeiro EU possa ser liberto do poder umbigocêntrico.
Adestramento cristão
Crente é um bicho estranho. Você grita “AMÉM?” e ele responde gritando o mesmo. Se perguntar pela segunda vez, ele responderá mais alto. Se no meio do louvor você gritar “pule na presença do Senhorrrrrrrr”, então eles pulam. Se você dançar de modo estranho, verá correspondência imediata nas pessoas.
Sua linguagem é facilmente influenciável por jargões. Basta pegar qualquer expressão bíblica cujo significado seja obscuro para a maioria, e pronto! Também colam as expressões inventadas que possuem aparência de espiritual, como por exemplo “ato profético”. Difícil de crer que nem existe esta expressão na Bíblia né?
Facilmente também estereotipamos outras coisas que fazem do crente um ser quase alienígena: os lugares que frequenta, o conteúdo de suas conversas e a aversão às coisas “do mundo”.
Pena quem os crentes não são condicionados a obedecer a todo tipo de “comando”. Parece que o adestramento a que foram submetidos possui limitações. Nem todos aceitam sugestionamentos que os levem a renunciar a seus interesses; ou dividirem suas posses com os necessitados; ou mesmo disponibilizar tempo para aqueles que estão abandonados em asilos, orfanatos e nas ruas.
Ah… antes que eu me esqueça, quero deixar claro que amo os crentes. E exatamente por ser um deles é que me incomodo tanto com estas coisas incompreensíveis que aceitamos passivamente em nossa conduta.