Onde o IRC, a Igreja e meu tênis se encontram
O mundo é um laboratório onde sou pesquisador e cobaia ao mesmo tempo.
Sem a pretensão de, através de análises sistemáticas, pensarmos que somos capazes de entender como a vida e as pessoas “funcionam”, ainda sim se torna indispensável observarmos atentamente as relações interpessoais (ou ausência delas) que tornam aqueles que estão ao nosso redor felizes ou amargos.
Curiosamente a Bíblia não se preocupa muito com o conceito abstrato de felicidade. Assim como também não se preocupa em provar a existência de Deus. Soa como se a não existência de Deus, assim como a ausência da felicidade em um ser humano fossem coisas absolutamente impossíveis.
Aprendi com os anos a experimentar situações. Perceber como as pessoas reagem aos mínimos gestos. O estranho disto é que eu também sou parte da mesma experiência. Situações e pessoas mexem comigo. Durante os 10 anos que gastei de minha vida brincando no finado IRC (#uberlandia, Rede Brasnet), aprendi a manipular pessoas. Soa como quase inacreditável o incontável número de vezes em que eu e meus amigos utilizamos de situações e palavras ardilosamente arquitetadas. E o resultado destas ações trazia uma sensação de poder quase que ilimitado.
Neste laboratório chamado VIDA, fui confrontado por Deus no que se refere ao trato com pessoas. Há alguns anos atrás, a direção clara para minha vida me foi entregue em um breve diálogo:
- Sabe todas aquelas coisas que você descobriu sobre como manipular pessoas e situações?
- Sei.
- Pois estas coisas são exatamente o oposto de tudo que você deverá fazer quando tratar dos interesses da minha Igreja. Estes 10 anos de sua vida foram o intensivo de como “não fazer”. Mas agora você irá fazer o contrário. Se alguém tem que perder, que seja você.
Gostaria de poder afirmar que este diálogo se deu com um homem. Mas desta vez não foi.
Desde então me tornei um pesquisador/cobaia que entende seu papel dentro deste experimento. E tenho sido surpreendido dia após dia com o poder do amor. Ações desinteressadas que revelam um amor quase líquido. Claro ao ponto de ser transparente; fluído numa consistência intermediária entre o mel e a água.
Ontem a Marina me desafiou a sair de casa com um pé de cada par de tênis. Esta idéia já havia me passado pela cabeça antes… exatamente no ano de 1990. Agora, 19 anos depois, sou confrontado com esta tentativa de provar um conceito. Obviamente não fugi do desafio.
Ninguém. Absolutamente ninguém irá reparar em você, assim como igualmente você não gasta seu tempo reparando nos demais. Nossos olhos procuram o esdrúxulo. Buscamos as cabeças que usam chapéus de melancia. Enxergamos apenas aquilo que queremos enxergar.
Ao contrário de quando o número de pessoas era realmente importante, agora me sinto constrangido a reparar nos indivíduos. Olhando atentamente, dá pra perceber onde está sua angústia. Mas também dá pra lembrar as pessoas de onde está aprisionada a verdadeira felicidade.
No sermão do monte, Jesus afirma coisas fáceis de se entender e difíceis de se aceitar. Diz que feliz mesmo são os pobres de espírito, os que tem fome e sede de justiça, os mansos. Exatamente o oposto de tudo que naturalmente representa uma pessoa feliz em nosso conceito humano. Como pode alguém ser feliz se está na posição visivelmente mais desgraçada possível? Pobreza de espírito é reconhecer sua própria miséria. Fome e sede de justiça significa que vive a injustiça no seu auge. O manso é aquele que voluntariamente perde para que outros vençam.
A felicidade é sutil como o grão de mostarda. Está bem próxima, mas é tão pequena, que se não for intencionalmente observada, será desprezada. Ela não está nos grandes feitos e nem nas coisas que podemos adquirir. Não está no dinheiro, no poder ou na influência que exercemos sobre outras pessoas.
A diferença entre viver a felicidade real e enganar-se, é sutil… mas perceptível àqueles que estão cansados de aceitar que as coisas são do jeito que são.
Meditação? Que diabos é isso?
Dá pra perceber claramente que nós ocidentais temos aversão à palavra meditação. Principalmente nós que nos consideramos cristãos evangélicos. Como se meditação estivesse associada a sentar-se no chão, acender um incenso fedido, cruzar as pernas, fechar os olhos e dizer “aummm”. Particularmente, gosto de todas estas coisas, com excessão de cruzar as pernas. Mas este estigma de meditação muitas vezes não permite que tenhamos um tempo de qualidade na leitura, tanto da palavra quanto de artigos de outras pessoas.
Tenho me dedicado bastante à leitura de artigos nos últimos meses. E a cada dia fico mais surpreso com a qualidade dos materiais que gratuitamente podemos encontrar na internet. Inclusive este site é uma tentativa minimalista de colaborar com a produção intelectual cristã independente, pois creio que nem sempre há uma correta valorização do conhecimento no meio evangélico. Lidar com pessoas que pensam pode ser algo problemático realmente. Mas quem disse que pastorear é fácil?
Há alguns anos, quando ainda estava na faculdade, eu disse em uma roda de amigos que gostaria que existissem “livros do Paraguai”. Isto por que sempre considerei um livro um artigo caro. Devido à grande desvalorização da moeda do país nos últimos 15 anos, hoje não considero que 30 reais em um bom livro seja tão caro assim. Mas, o mau hábito de querer comprar coisas de 1,99 as vezes me impede de comprar mais.
Quando comecei a ler mais artigos cristãos na internet, passei por uma crise de identidade ao me deparar com textos tão críticos e embasados biblicamente, que abalaram minhas convicções mais sólidas. Demorei um certo tempo para digerir tudo aquilo. E, uma vez terminado este processo, aprendi a meditar em idéias diferentes com paciência, mesmo que estas idéias pareçam absurdas inicialmente.
Quem disse que não podemos dedicar tempo para entendermos as coisas loucas e absurdas? Se investirmos tempo na busca da revelação que apenas o Espírito Santo pode trazer, necessariamente iremos bater de frente com as respostas.
Gasto boa parte de meu dia em meditação. Mesmo que seja sentado no sofá ao lado de minha mesa no trabalho. Medito lendo o jornal e a revista. Ou ouvindo a conversa das pessoas ao meu redor. Medito na palavra de Deus e nos artigos de pensadores cristãos que leio na internet. Medito nas heresias que ouço a todo tempo na TV. E neste processo Deus vai falando pacientemente comigo, de modo que eu possa compreender ainda mais o que significa andar com Cristo.