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Equilíbrio

Desigrejados: a difícil adaptação

Um dos desafios de qualquer tentativa de “ser Igreja” está na correta adaptação daqueles que vieram de outras experiências religiosas à vida genuína em comunidade. E com certeza os mais difíceis de serem suportados são os que já eram (ou tentaram ser) crentes.

Quando uma pessoa vem de outro tipo de vivência de fé, rapidamente fica deslumbrada com o ensino claro e direto das escrituras. Mas o crente “de outra Igreja”, embora rejeite completamente a experiência que passou, ao mesmo tempo se recusa a reaprender os fundamentos de uma vida cristã inspiradora. Ele muda de ambiente mas não quer abandonar os vícios.

Alcançar as pessoas desigrejadas é algo relativamente simples. Basta descer do púlpito, renunciar ao microfone e viver diretamente em meio às pessoas. A beleza do evangelho EXPERIMENTADO por si só é suficiente para atrair a todos. Mas num segundo momento torna-se necessário filtrar quem realmente está disposto a carregar a sua própria cruz daqueles que estão procurando apenas mais uma experiência religiosa para sua coleção. Leia o Restante

Em defesa das instituições

Considero importantíssima a desconstrução dos conceitos acerca da igreja contemporânea. Não dá pra fugir desta discussão. Mas haverá fundamento sólido nos discursos que consideram que as instituições religiosas são o próprio anti-cristo? Leia o Restante

Propaganda versus Evangelismo

Somos especialistas em fazer propaganda enfatizando exatamente aquilo que não somos. Isto é quase sempre uma regra. No desespero de atingirmos um grupo grande de pessoas, atropelar a ética se torna algo comum. É preciso perceber que a ética para a elaboração de mídias de produtos não pode ser utilizada para a disseminação do evangelho. Leia o Restante

A hora de pedir ajuda

Há uma onda de orientações afirmando que as pessoas que possuem problemas de compulsão (seja em que área for), devem procurar ajuda. Tudo fundamentado em estatísticas e versículos bíblicos enfatizando o quanto é importante que não sejamos dominados por coisa alguma. Porém, qual é a hora certa de pedir ajuda? Leia o Restante

Pensamentos de 1987

Durante algum dia do ano letivo em 1987, quando eu cursava a segunda série do primeiro grau, numa época em que as crianças ainda faziam provas de verdade e eram reprovadas caso não obtivessem notas mínimas, participei de uma discussão sobre alguma coisa do gênero gramatical. Então formulei uma frase de exemplo:

- Eu não sou feliz.

Imediatamente fui questionado pela professora, que era mestra em jogar apagadores na cabeça dos alunos bagunceiros (acredite… naquela época os professores faziam isso… e você ainda apanhava em casa depois). Ela perguntou se eu realmente achava que não era feliz. Sem me dar conta do quanto os adultos se preocupam com a felicidade das crianças, insisti que realmente eu não era feliz.

Os meses seguintes foram cheios de questionamentos por parte de meus pais, tentando entender por que afinal eu havia dito na escola que não era feliz. Depois de perceberem que eu não possuía uma resposta coerente, fui moralmente censurado, sendo obrigado a guardar para mim mesmo estes questionamentos mais íntimos.

Isto se repetiu diversas vezes em minha vida. Quando um problema surgia, bastava alguém me dar um tranco e dizer “ah! pare de reclamar… você não tem problema nenhum!”. Me acostumei tanto a isto, que me tornei indiferente às opiniões alheias (principalmente daqueles que eram de minha própria casa).

De repente estas idéias voltam à minha mente, exatos 12 anos depois. Reafirmo que nunca fui e continuo não sendo feliz. Mas isto não é algo desesperador como muitos podem pensar. A felicidade na verdade é um caminho e não um lugar. Tenho vivivo de passagem pela felicidade todos os dias, porém a tristeza inerente ao inconformismo de meu espírito é que me faz continuar caminhando. Combatendo o ódio, vou vivendo o amor. Assim venço dia a dia toda apatia que faz de um homem um fracassado. Vencer é continuar.

Das muitas coisas que eu gostaria de poder ter dito a mim mesmo na infância (caso fosse possível mandar recados pro passado), eu enfatizaria estas cinco:

  1. Você não é igual aos demais. Portanto não tente ser. Não vale a pena.
  2. Se o mundo inteiro discorda de sua opinião, então você está no caminho certo.
  3. Não se preocupe com o futuro. Ele naturalmente dará certo.
  4. Não perca uma única noite de sono por causa de seus problemas. Eles não são tão importantes assim.
  5. Você irá encontrar muitas pessoas que querem aprender a olhar o mundo com outros olhos. Portanto continue a andar firme no caminho. Quando menos perceber terá conseguido inspirar muitos.

Odeio manuais de instruções

Pra mim, manual de instrução é um tipo de piada de mal gosto. Penso que se algo precisa de instruções de uso, é por que não está intuitivo o suficiente. Se a experiência de “uso” não basta para que se aprenda tudo que é necessário, então não estamos falando de um produto acabado. Logo, tal produto não é bom o suficiente. Citando um comentário pertinente que recebi no Twitter:

RT @tiogate O manual é para você não estragar a coisa antes de alcançar a experiência.

Realmente os criadores de manuais querem garantir que não iremos estragar “a coisa” manuseando de maneira diferente do desejado pelo “fornecedor”. Não digo que todo manual é inútil. Mas a proliferação de manuais desnecessários faz com que eu me sinta como um escravo do filme Matrix. Criaram limites seguros para que eu possa andar. Por mais que um manual possa mostrar a forma desejável de se realizar determinada tarefa, na realidade o objetivo real de um método é sempre exercer controle. Controle não rima com liberdade. E quem experimentou da liberdade ao menos uma vez, não consegue viver novamente debaixo do véu da aparência. Controle é algo que vislumbra apenas resultados aparentes (ou que podem ser metrificados).

Há pessoas que se dedicam a produzir manuais. Estas pessoas investem seus esforços em criar (ou importar) passos a serem seguidos. De modo que, qualquer um, em qualquer lugar, com um mínimo de conhecimento necessário, seja capaz de seguir as instruções e obter sucesso na utilização do tal produto. Eu começo questionando o que seja “sucesso”. Estes paradigmas baseados na comparação deveriam estar enterrados em algum lugar do século passado. Não há espaço em minha vida para tentativas de instigar pessoas a “desejarem” o sucesso obtido por fulano mediante a aplicação de tal manual. Não sou igual aos outros. Não desejo o que outros têm. Simplesmente não estou interessado em nada disto.

Lendo o post “Improvise, uma vida sem propósito” do blog Caverna do Lou,  fiquei pensando sobre como de fato o hábito de criar “manuais” é uma característica típica de gringos provenientes de países desenvolvidos. É algo inerente à cultura deles. Ridícula é nossa atitude ao copiar modelos enlatados para criar manuais abrasileirados. E mais ridículo ainda é aceitar este doutrinamento sem questionar este sistema.

Até mesmo a própria Bíblia, se não for experimentada, torna-se apenas um manual de conduta incapaz de produzir bons frutos. Ela própria afirma que “a letra mata, mas o Espírito vivifica” (2 Coríntios 3:6).

Trabalhar não é um problema para mim. Problema é ter horário pra chegar, horário pra sair e ficar preso dentro de um ambiente totalmente penitenciária durante 8 horas diárias. Problema é ter que almoçar no “comeu-morreu” próximo por que seu horário de trabalho impede que seja possível ir para casa. Então deparamos com dois tipos de pessoas apenas: os conformados (que vivem segundo o manual) e os que adoram Prison Break.

Muitos manuais existem para serem desconsiderados.
Muitas regras existem para serem quebradas.

Com medo de errar, muita gente se acomoda sem fazer absolutamente nada.
Não foi “fazendo nada” que as realidades foram transformadas no passado. E com certeza não será diferente no futuro.

Manual de Instruções

A virtude em xingar alguém

Domingo, enquanto dirigia o camburão para a igreja, refletia sobre o quanto se tornou inconveniente utilizar alguns palavrões para expressar idéias e sentimentos em meus textos. O tal “Espírito de Pastor”, bem citado no blog do Sandro Baggio, pressiona todos aqueles que estão diretamente envolvidos em funções pastorais a renunciar o uso de expressões chulas e ofensas dirigidas diretamente a pessoas.

Claro que, devido à exposição pública que todos os envolvidos no ministério possuem, não seria prudente criar polêmica defendendo o uso de palavras frívolas (Mateus 12:36). Mas muitas vezes vejo que ao utilizamos outros elementos lingüísticos para contornar tais limitações geradas pela expectativa que outros possuem a nosso respeito, cometemos assassinatos morais muito piores do que o  uso de um simples “vai se f****”. Xingar não seria o correto. Mas às vezes poderia ser menos danoso. Há virtude em quem compreende isto!

A ironia é um dos artifícios lingüísticos comuns que mata mais do que xingamentos. Aquele que xinga, deixa explícito quais são suas intenções e sentimentos. Não está preocupado em ter a razão. Xingar é deixar claro que a emoção está momentaneamete falando mais alto do que a razão. Mas aquele que se utiliza da ironia, recusa-se terminantemente a reconhecer sua falibilidade. Esta presunção de estar certo, além de geralmente deixar cadáveres espalhados por todo o caminho, também contamina o próprio coração.

Questiono o que seja “vencer” uma argumentação quando o debate culmina no extermínio do outro. Não seria mais prudente às vezes perder propositalmente, deixando explícito que a unidade do Espírito no vínculo da paz é mais importante que qualquer outra coisa? Tenho a convicção de que jamais nos foi exigido concordar em todas as questões, pois obviamente Deus não concorda com boa parte das coisas que o melhor de nós pensa e, mesmo assim, não o descarta.

Na dúvida, prefira expor sua ira, para que ela possa ser verdadeiramente momentânea.

“Irai-vos e não pequeis; não se ponha o sol sobre a vossa ira, nem deis lugar ao diabo.” (Efésios 4:26-27)

Heterogeneidade (ou, odeio sair com crente)

Dona Marina (minha sócia, proprietária e esposa) diz que eu enjoo das coisas muito rapidamente. Numa semana gosto de Kuat Zero. Na outra prefiro Aquarius Fresh. E depois de uns dias estou fissurado por H2O de maçã. Já fui apaixonado por salada… mas agora não suporto nem olhar para elas. Posso citar pelo menos 50 coisas que eu deixei de gostar.

Igualmente enjoo das pessoas. O convívio excessivo com alguém acaba por me deixar saturado dela. Quando passei a perceber isto, comecei involuntariamente a acreditar naquele ditado que diz que apenas os inimigos não perdemos pelo caminho.

Por que o tal do “crente” possui a tendência de reduzir seu círculo social cada vez mais? Há alguns anos percebi que não suporto a homogeneidade das relações, principalmente dentro da igreja. Obviamente que criar vínculos com os diferentes demanda esforço. Mas é a única maneira que conheço para não morrer de tédio.

Para sair do tédio, gostaria de derramar algumas críticas ao que usualmente é chamado de “culto”. As cadeiras sempre no mesmo lugar provocam em mim um tédio quase mortal. E ninguém tem coragem de mexê-las, ainda que seja alguns poucos metros para um lado ou para o outro. Também a falta de interatividade de muitas reuniões auto-denominadas “cultos”. Elas possuem uma fórmula litúrgica, quase matemática, que me incomoda. Me incomoda estar preso dentro de um lugar por horas… sem a possibilidade de conversar com alguém. Não me admira que a maioria das pessoas não se lembre do que foi falado em uma “palestra” poucas horas após o seu término. Creio que a minoria possui a habilidade dos monges de se concentrar em algo desinteressante por mais de cinco minutos.

Mas após o doutrinamento (ensino da “forma”), replicamos o modelo ao selecionar o que iremos fazer após a reunião. Não é nem necessário fazer pesquisa para perceber que só há 3 tipos de lugares onde as pessoas vão ao final de um culto:

  1. Pra casa
  2. Fazer algo que não deveriam fazer
  3. Sair pra comer

O primeiro grupo age como se tivesse 70 anos de idade. Juro que queria entender. O segundo grupo é o da maioria. Já “bateram o ponto” em seu compromisso religioso, então nada melhor do que voltar a sua vida normal (por mais anormal que ela de fato seja). E o terceiro grupo é o mais animado dentre os crentes… porém me mata de tédio.

Escolhemos os lugares onde vamos e os repetimos religiosamente semana após semana. Nossa companhias também foram selecionadas pela afinidade. Preferimos nossos “amigos”, mesmo que não sejam tão amigos assim. Conversamos sobre as mesmas coisas, dia após dia. Se você é solteiro, fala sobre namorar. Se namora, fala sobre casar. Se é casado, fala sobre como é ser casado ou sobre ter filhos. Se é do tipo espiritual, conta “testemunhos”.

Não estou dizendo que as pessoas são descartáveis. Mas aumentar nosso círculo de relacionamento permite que não desgastemos amizades que deveriam durar por toda uma vida.

Mas se você ainda é um ser humano, então no mínimo deveria respirar emoção. Deveria estar cansado de tudo isto que citei e com um pouco de esforço, ainda se lembraria do desejo de liberdade que Deus colocou em seu coração. Percebe como ficam de fora do nosso dia a dia a expontaneidade, o êxtase, a surpresa e consequentemente a alegria? Quem disse que bonito é ser igual? Quem disse que as pessoas diferentes de nós mesmos não têm nada de interessante? Há um mundo imenso lá fora… e nós estamos perdendo nosso tempo buscando uma homogeneidade ridícula e anti-bíblica.

“Quando amamos somente aqueles que se parecem conosco, não amamos ao próximo, mas antes a nós mesmos refletidos no próximo” (Martin Buber)

Falar é fácil…

Meu pai diz que quem compra um carro vermelho, faz o pior negócio da vida. Carro tem que ser preto ou prata. Estas são as cores “boas” para se negociar. De repente me veio à memória as cores dos carros que tivemos na família nos últimos 30 anos: 3 verdes, 2 beges, 2 vermelhos, 1 cinza grafite, 1 azul, 1 amarelo e 1 marrom. Com certeza deve ter mais algum aí nesta conta. Mas definitivamente, apenas o carro atual de minha mãe é prata. Não há nenhuma outra ocorrência destas cores “boas”.

Certa vez houve uma discussão sobre política em minha família. Fui confrontado por discordar de que, se um político “recebe por fora” para facilitar uma licitação, desde que o preço fechado seja o melhor, não há problema algum. Então os anos se passaram e começo a pensar se os que discordaram de mim ainda considerariam lícita esta atitude caso um funcionário de uma das empresas “da família” estivesse ganhando presentes de um vendedor para “facilitar” as coisas.

Que estranho. Parece que os conselhos que damos aos outros nem sempre valem para nós mesmos. Ah… este não é um post-crítica ao meu pai ou a qualquer outro membro da família. A maioria deles não tem culpa do modo pelo qual baseiam suas percepções do mundo. Indesculpáveis mesmo somos nós, quando simplesmente aceitamos os fatos sem realizar questionamentos. E do mesmo modo que engolimos toda sorte de “verdades”, igualmente queremos enfiá-las goela abaixo nas outras pessoas.

É muito estranho como me sinto levado ao longo da vida por caminhos que muitas vezes são extremos. Mas chego à conclusão de que em nenhum extremo encontro a verdade absoluta. Por isso posso dizer claramente que não simpatizo com as idéias liberais e tampouco com as conservadoras. Ao mesmo tempo, não sou um alienado pós-moderno, que valoriza apenas o que sente e, cujas verdades pessoais valem mais do que a fundamentação racional. Estou literalmente  no underground do pensamento (felizmente descobri que não estou sozinho).

Sou discretamente ansioso quanto ao fim. É um sentimento quase escatológico. Vejo as pessoas assustadas com algumas brincadeiras que costumo fazer sobre o assunto. Parece que todo mundo está cheio de conselhos para a vida alheia, mas o mais inevitável preferimos nem sequer comentar. Me aborrece a falta de objetividade das pessoas. Não sabem o que estão fazendo e nem pra onde estão indo. Pela presunção de que possuem a eternidade a seu dispor, desprezam o conceito de “remir o tempo”.

BombaOutra coisa que me aborrece é quando burocratizamos processos através da organização estrutural. Estruturas nos dão segurança e suporte, mas chega o momento em que algumas fundações precisam ser trocadas por materiais mais modernos. Já viu um amortecedor de estádio de futebol? Antigamente a vibração da arquibancada superior de um estádio era algo preocupante e que poderia levar ao desmoronamento. Então perceberam que adaptando os pontos “críticos” com estruturas flexíveis, poderiam permitir que todo aquele concreto se movimentasse sem causar danos ao conjunto. Estruturas inflexíveis tendem a se movimentar com muita lerdeza (isto quando conseguem se movimentar). Com o tempo tornam-se tão ultrapassadas, que são consideradas desperdício. Chega a hora então da demolição. O problema da demolição é que por mais que haja uma nova edificação pronta para ser levantada, não há demolição sem traumas. E vivam os explosivos!

Minha vontade é me encher de explosivos e tirar essa falsa sensação de paz das pessoas. Quero virar o mundo de cabeça pra baixo e relembrar a cada um de que tudo vai passar. Quero explodir as pessoas, por que explodir estruturas não muda absolutamente nada. Atitude inteligente de Deus na construção da torre de Babel, ao misturar os idiomas de cada um. Se Deus tivesse explodido a torre, simplesmente teríamos a versão 2.0, com alicerces reforçados e com mais voluntários prontos a desperdiçarem suas vidas nisto.

Quem sabe explodindo pessoas, conseguiremos abrir os olhos daqueles que são ótimos para aconselhar, mas lentos em seguir os próprios conselhos.

Sabe por que gosto de críticas? Por que elas não tem compromisso com os “achismos”. Elas podem parecer altamente destrutivas, mas cabam por sutilmente abordar a verdade uma vez ou outra. Quanto aos conselhos hipócritas, estes eu dispenso. Por que falar é fácil…

Macarronada

Um dos momentos mais legais do dia é quando minha sobrinha (que atualmente tem 4 anos de idade) sobre as escadas de onde trabalho, mesmo que seja para conversar pouco mais de uns 2 minutos comigo.

The Spaghetti Incident

Como é algo natural de uma criança, mexe e pergunta sobre tudo. E qualquer detalhe que tenha mudado desde a última vez que ela esteve aqui, chama a atenção como se fosse um luminoso em Las Vegas.

Ontem ela percebeu que havia um disco de vinil na prateleira que fica atrás de minha cadeira. É o disco The Spaghetti Incident do finado Guns n´ Roses (considerado o último disco da banda). Me lembro claramente da reação de meus pais quando este disco foi lançado em 1993, quando sua capa considerada nojenta e agressiva, se encontrava em destaque nas prateleiras do Carrefour. Na época, esta capa foi motivo de conversas até mesmo na escola. Naturalmente me deixei levar pelos comentários do tipo “nossaaaa… é um monte de minhocas! ou um cérebro em pedaços! ou tripas de um ser humano!”. Minha sobrinha apenas disse:

- O que é aquele macarrão?
- É um disco.
- Disco de que?
- Quando eu tinha seu tamanho, não existia CD. Então as músicas eram gravadas em discos grandes como este.
- Que legal! Põe pra tocar aí.
- Não dá. Não tem onde por isso no meu computador.
- Por que não?
(…)

Peguei o disco e mostrei a ela, que com olhos atentos, parecia contemplar um objeto vindo do espaço. Ofereci a ela então ouvir as músicas do disco que possuo também em MP3. Ao ouvir, ela emendou:

- Música bonita. Dá até pra dormir.
- Essa música tocou no meu casamento.

Fiquei intrigado sobre como os olhos de uma criança não são rápidos a julgar-condenar-executar sentenças sobre o mundo que as cerca. Torna-se compreensível a intenção das palavras de Cristo ao afirmar que teríamos que nos tornar como crianças para podermos entrar no Reino.

A malícia, a maldade e todas as outras coisas que simplesmente estão além do que elas realmente SÃO, demonstram ser pura perda de tempo. Gostaria de entender por que consideramos que “malícia” está mais associada à palavra “maturidade” do que “prudência”.

Em meus ouvidos, ser malicioso soa como “antecipar mentiras, através da arte de mentir”. Enquanto que ser prudente é provar a veracidade de todas as coisas, quer sejam mentiras, quer sejam verdades.

Como podemos ensinar a uma criança sobre maturidade se nós mesmos muitas vezes nos deixamos contaminar por valores distorcidos? Talvez, se enfatizássemos o ensino da prudência, haveria equilíbrio entre o aprender e o ensinar, de modo que a “escola” da vida se tornasse como uma brincadeira infantil: intensa, sincera e divertida.

O problema é que nem todos ainda se divertem com o que é simples e puro. Preferem se considerar “adultos”, fechando os olhos para o que apenas as crianças podem ver. A única conclusão a que consigo chegar é que quanto mais o tempo passa, menos queremos enxergar. E ainda tentamos pressionar as crianças para passarem pelo funil a que fomos submetidos, como se isto fosse garantia de uma vida agradável e bem sucedida.

Afinal, o que é ser bem sucedido? Não seria apenas uma maneira de enxergar o mundo? Pra me deixar satisfeito, basta um prato de macarronada.