O pastor e o caixa dois
Era uma vez um pastor que sentia em seu coração que era necessário investir um pouco mais em estrutura no local onde sua congregação se reunia semanalmente. Então ele procurou seus companheiros co-pastores e compartilhou suas angústias. Num ato inesperado de fé, muitas idéias de planejamentos de curto prazo rapidamente encheram uma folha de papel. Porém nem todas as letras escritas foram suficientes para animar aos demais membros da igreja, pois estes se cansaram de ver planos que jamais se tornaram realidade.
Tentando mudar esta realidade, os pastores procuraram apoio para seus planos mirabolantes junto à sua denominação. Quem sabe encontrariam algum “toddy” destinado a investimentos para melhorar a vida das pessoas. Porém, foram informados pelo departamento financeiro que suas possibilidades de arrecadação são o limite do risco que estão autorizados a correr. O plano de reestruturação da forma da igreja nem sequer foi olhado, pois afinal, o que pode um plano contra os números?
Para que pudessem viabilizar um financiamento dos investimentos estruturais junto à sua denominação, foi proposto que um dos pastores se tornasse fiador da dívida pessoalmente. A proposta inicialmente pareceu razoável, já que as finanças pessoais de todos os que estão realmente envolvidos com o ministério, costumam estar sempre à disposição da coletividade. É quase a materialização da utopia de Atos 2:42.
Após preencher várias promissórias (que todos sabem que com certeza serão executadas em caso de não pagamento), o financiamento foi autorizado. E os pastores passaram a colocar em prática todos os sonhos que Deus havia dado. Milagrosamente, o ânimo foi aceso na vida daqueles que estavam mais apáticos. Um verdadeiro milagre aconteceu.
Às custas de uma série de atividades paralelas desenvolvidas dentro do local onde a Igreja se reúne, os pastores conseguiram mês após mês honrar os compromissos financeiros assumidos no financiamento. Foi criada uma administração financeira paralela à arrecadação do gasofilácio, com propósito específico de custear a dívida assumida. E tudo ia muito bem.
Só que um dia, em meio a uma tempestade de pensamentos desordenados, um dos pastores se perguntou:
- Por que, à semelhança da Universal do Reino de Deus, a maioria das denominações incentivam seus pastores a fazer caixa dois?
Alegorias para enganar o coração
Houve um sujeito chamado Orígenes (185 — 253 d.C.), que conseguiu escrever seu nome na história por dois feitos históricos. O primeiro foi ser considerado o maior erudito da igreja antiga, devido às suas mais de 600 obras publicadas ao longo de sua vida. O segundo foi ter sido considerado um herege, devido à sua defesa da interpretação alegória dos textos das sagradas escrituras. Em seu ponto de vista, havia uma clareza aparente nas entrelinhas, capaz de levar o homem a um entendimento mais profundo.
Uma vez que foi publicamente considerado um deturpador da doutrina cristã do primeiro século, fundou sua própria linha filosófica, denominada Escola de Cesaréia.
Ainda hoje, quase vinte séculos após, encontramos pessoas influenciadas por erros primários cometidos por doutrinadores apóstatas do início da igreja. E cada vez torna-se aceitável que a interpretação alegórica das verdades seja boa, pois traz conforto ao coração corrupto e interesseiro do homem.
Para exemplificar tal fato, considero importante citar a passagem de Marcos 10:23-25:
“Então Jesus, olhando em redor, disse aos seus discípulos: Quão dificilmente entrarão no reino de Deus os que têm riquezas! E os discípulos se maravilharam destas suas palavras; mas Jesus, tornando a falar, disse-lhes: Filhos, quão difícil é entrar no reino de Deus! É mais fácil um camelo passar pelo fundo de uma agulha, do que entrar um rico no reino de Deus.”
Creio inabalavelmente que se nossos planos mudam de acordo com a quantidade de riqueza que podemos acumular, então nosso coração definitivamente não está no reino de Deus. Aqueles que fazem parte do Reino irão empreender grandes coisas, quer tenham dinheiro, quer não. Seus planos são imutáveis, pois são fundamentados em um Deus imutável. Se o dinheiro vier, tais pessoas já sabem o que fazer. Se o dinheiro não vier, tais pessoas irão buscar em Deus o “como fazer”. Mas sabem quem são e a que Reino pertencem. Portanto não faz sentido se embaraçar com coisas deste mundo mesmo que pareçam lícitas, pois “todas as coisas me são lícitas, mas nem todas as coisas me convém”.
Se pensamos que Deus realmente está preocupado com nosso conforto e com nossa estabilidade financeira, então somos os maiores hipócritas na face da terra. Não foi este o exemplo que Cristo nos deu. E não importa o quanto desejamos insistir em viver uma alegoria conveniente das escrituras, pois a verdade não pode ser ocultada para sempre. A verdade é como a luz que se manifesta de maneira a subjugar completamente a escuridão. Pode ser que porque ainda não foi manifesta a luz eterna de maneira visível a toda carne, possamos encontrar nesta vida algumas sombras para nos encondermos. Mas… estas sombras estão com os dias contados.
Diz a história que Spurgeon conseguia reunir 12 mil pessoas em suas pregações. Um feito incrível para a época. Mas o que me intriga de fato é imaginar o número de pessoas que não queria vê-lo nem pintado de ouro. Suas palavras eram diretas e confrontavam os interesses pessoais com as verdades eternas. Exatamente o contrário do que fazemos comumente com grande facilidade nos dias de hoje. Reunimos milhões de pessoas para cultuar alegorias que nada tem a ver com a verdade.
Bem disse o profeta Isaías quando anunciou que, por maior que fosse o número do povo de Israel, o remanescente é que seria salvo.
Eu não faço parte deste sistema demoníaco que aceita todas as coisas mastigadas. Não quero viver um evangelho alegórico e que nada tem de fundamentação na verdade. Preciso de Cristo Jesus integralmente em minha vida. Todo o resto pode esperar. Todo o resto é apenas o resto.
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