Pesquisar

Categorias

Conceitos

Pensamentos de 1987

Durante algum dia do ano letivo em 1987, quando eu cursava a segunda série do primeiro grau, numa época em que as crianças ainda faziam provas de verdade e eram reprovadas caso não obtivessem notas mínimas, participei de uma discussão sobre alguma coisa do gênero gramatical. Então formulei uma frase de exemplo:

- Eu não sou feliz.

Imediatamente fui questionado pela professora, que era mestra em jogar apagadores na cabeça dos alunos bagunceiros (acredite… naquela época os professores faziam isso… e você ainda apanhava em casa depois). Ela perguntou se eu realmente achava que não era feliz. Sem me dar conta do quanto os adultos se preocupam com a felicidade das crianças, insisti que realmente eu não era feliz.

Os meses seguintes foram cheios de questionamentos por parte de meus pais, tentando entender por que afinal eu havia dito na escola que não era feliz. Depois de perceberem que eu não possuía uma resposta coerente, fui moralmente censurado, sendo obrigado a guardar para mim mesmo estes questionamentos mais íntimos.

Isto se repetiu diversas vezes em minha vida. Quando um problema surgia, bastava alguém me dar um tranco e dizer “ah! pare de reclamar… você não tem problema nenhum!”. Me acostumei tanto a isto, que me tornei indiferente às opiniões alheias (principalmente daqueles que eram de minha própria casa).

De repente estas idéias voltam à minha mente, exatos 12 anos depois. Reafirmo que nunca fui e continuo não sendo feliz. Mas isto não é algo desesperador como muitos podem pensar. A felicidade na verdade é um caminho e não um lugar. Tenho vivivo de passagem pela felicidade todos os dias, porém a tristeza inerente ao inconformismo de meu espírito é que me faz continuar caminhando. Combatendo o ódio, vou vivendo o amor. Assim venço dia a dia toda apatia que faz de um homem um fracassado. Vencer é continuar.

Das muitas coisas que eu gostaria de poder ter dito a mim mesmo na infância (caso fosse possível mandar recados pro passado), eu enfatizaria estas cinco:

  1. Você não é igual aos demais. Portanto não tente ser. Não vale a pena.
  2. Se o mundo inteiro discorda de sua opinião, então você está no caminho certo.
  3. Não se preocupe com o futuro. Ele naturalmente dará certo.
  4. Não perca uma única noite de sono por causa de seus problemas. Eles não são tão importantes assim.
  5. Você irá encontrar muitas pessoas que querem aprender a olhar o mundo com outros olhos. Portanto continue a andar firme no caminho. Quando menos perceber terá conseguido inspirar muitos.

Adubando o joio

Às vezes nos vemos lutando contra circunstâncias sem avaliarmos quais as vantagens em fazê-lo. Por que há tantas questões urgentes que preferimos convenientemente não abordar, enquanto insistimos em levantar bandeiras contra outras?

Algumas realidades que estão próximas, como por exemplo a proibição de manifestações de idéias que sejam contrárias ao  homossexualismo, soam no mínimo interessantes em meu ponto de vista. Nossa conduta enquanto cristãos está tão manchada, que a sociedade simplesmente prefere ignorar nossas opiniões. E está difícil não dar razão à sociedade sobre os que se dizem cristãos.

Desobediência civil era uma prática comum nos anos 60, onde principalmente os hippies, demonstravam suas insatisfações com os valores estabelecidos. Ficava explícito quem era verdadeiro (true) e quem não era. Mas depois do mundo dar tantas voltas, em pleno século XXI, preferimos aceitar totalmente o “programa” instalado na mentalidade coletiva. Parece razoável acreditar que só há dois tipos de pessoas: os justos e os criminosos.

Naturalmente concluo que algumas destas pressões sociais para criação de leis que vão contra a genuína fé cristã serão muito produtivas, embora pouco agradáveis. Funcionarão como adubo para joio. Não importa se o joio irá crescer mais que o trigo. Importante mesmo é que no final seja possível separar perfeitamente quem é o que. Inevitavelmente será facílimo descobrir onde estarão os verdadeiros cristãos. Aqueles que quiserem ouvir a palavra de Deus, deixarão de ir às igrejas e se dirigirão às penitenciárias.

Quem sabe através da reavaliação individual e coletiva de nossas motivações, seremos capazes de influenciar o mundo através de nossas práticas. Curiosamente preferimos trabalhar ao contrário na maioria das vezes. Se a conduta de alguém está alinhada com os preceitos moralmente aceitáveis, então tal pessoa é dita “sem problemas”. As demais questões, referentes aos pensamentos, à fé e demais convicções pessoais, preferimos que sejam sufocadas. O que importa mesmo no final é a conduta. E assim criamos uma geração de seguidores da “nova lei”. Esta nova lei, embora baseada superficialmente nos mesmos textos bíblicos que fundamentam a graça, está mais para DESGRAÇA.

Analisando a vida dos grandes homens da bíblia, curiosamente não há um sequer (com excessão de Cristo), que seria considerado apto para o ministério pastoral segundo os critérios explicitamente desejáveis nos dias de hoje. Os grandes heróis bíblicos possuem manchas enormes em seus currículos. E Deus, em seu incrível senso de humor, enfatiza cada um dos defeitos de conduta no texto. Porém, todos os justificados, possuem uma mente, uma fé e todas as demais convicções pessoais apontando para a eternidade.

O que penso sobre o filme KNOWING e outras coisas que evito comentar em público

Sob orientação de meu antigo companheiro de universidade @tiogate, assisti o filme KNOWING (que prefiro ignorar o nome em português por causa do trauma que a sessão da tarde criou em mim nos anos 80). Se você não viu o filme e pensa ser importante assistí-lo antes de ver alguém contar o final, pare de ler por aqui.

O filme tenta amarrar conceitos bíblicos, a idéia de um apocalipse inevitável e extraterrestres. A maioria de nós crentes idiotas prefere nem perder tempo assistindo até o final, talvez para não confrontar nossas concepções. Só que eu vivo na dependência quase química de confrontos intelectuais para não morrer de tédio. Para cada escritor cristão, devo ler textos de pelo menos 3 ateus, satanistas ou desviados da “sã doutrina”. Uns preferem ver novela, outros preferem divertir-se com idéias. Cada um na sua.

Conceitualmente entendo que as coisas espirituais são muito semelhantes às coisas alienígenas. Afinal, o próprio Cristo afirma que o reino dele não é DESTE MUNDO. Em minha opinião o filme pecou apenas em três aspectos básicos:

  1. Ter feito aliens/seres superiores tão feios. Sério. Você tem tecnologia e poderes superiores a tudo que já vimos e ainda sim se traveste em pessoas branquelas e sem expressão?
  2. Não se preocupar nem um pouco com a “salvação” das demais pessoas. Se a morte inevitável seria suficiente para levar todos ao “outro mundo”, pra que alguém se preocuparia em salvar a vida biológica? Até nós já temos engenharia genética.
  3. As naves espaciais parecem “mecânicas” demais.

O ponto forte é a árvore no final. Uma clara alusão à árvore da vida. Se tivesse duas árvores, aí Moisés iria processar os produtores do filme por plágio do livro de Gênesis.

Conceitualmente creio que o filme fica devendo quando mostra que o universo é maior do que os seres superiores. Então esta mistura de “tudo é obra do acaso” com “há seres superiores” não é das idéias que mais me agrada.

Minha visão no que se refere à autoridade (ou controle) divino sobre todas as coisas é meio complexa e, mesmo depois de horas de explicação, provoco reações altamente destrutivas nas pessoas. Em meus rascunhos mentais concebo um Deus que é totalmente todo-poderoso e ao mesmo tempo me permite tomar decisões. Obviamente estas idéias parecem conflitantes para todos os que tentam explicar o mundo segundo uma lógica linear. Então tento fazer uso de modelos quânticos para tentar quase-compreender o mundo. Tudo muito bonito e cheio de teoria do caos e efeito borboleta.

A Bíblia não parece muito preocupada em provar a existência de Deus. Sua não existência não é tratada nem como uma possibilidade. E pra mim parece aceitável que, havendo um Deus criador, é necessário que ele seja no mínimo complexo o suficiente para que nós não o entendamos plenamente.

Odeio manuais de instruções

Pra mim, manual de instrução é um tipo de piada de mal gosto. Penso que se algo precisa de instruções de uso, é por que não está intuitivo o suficiente. Se a experiência de “uso” não basta para que se aprenda tudo que é necessário, então não estamos falando de um produto acabado. Logo, tal produto não é bom o suficiente. Citando um comentário pertinente que recebi no Twitter:

RT @tiogate O manual é para você não estragar a coisa antes de alcançar a experiência.

Realmente os criadores de manuais querem garantir que não iremos estragar “a coisa” manuseando de maneira diferente do desejado pelo “fornecedor”. Não digo que todo manual é inútil. Mas a proliferação de manuais desnecessários faz com que eu me sinta como um escravo do filme Matrix. Criaram limites seguros para que eu possa andar. Por mais que um manual possa mostrar a forma desejável de se realizar determinada tarefa, na realidade o objetivo real de um método é sempre exercer controle. Controle não rima com liberdade. E quem experimentou da liberdade ao menos uma vez, não consegue viver novamente debaixo do véu da aparência. Controle é algo que vislumbra apenas resultados aparentes (ou que podem ser metrificados).

Há pessoas que se dedicam a produzir manuais. Estas pessoas investem seus esforços em criar (ou importar) passos a serem seguidos. De modo que, qualquer um, em qualquer lugar, com um mínimo de conhecimento necessário, seja capaz de seguir as instruções e obter sucesso na utilização do tal produto. Eu começo questionando o que seja “sucesso”. Estes paradigmas baseados na comparação deveriam estar enterrados em algum lugar do século passado. Não há espaço em minha vida para tentativas de instigar pessoas a “desejarem” o sucesso obtido por fulano mediante a aplicação de tal manual. Não sou igual aos outros. Não desejo o que outros têm. Simplesmente não estou interessado em nada disto.

Lendo o post “Improvise, uma vida sem propósito” do blog Caverna do Lou,  fiquei pensando sobre como de fato o hábito de criar “manuais” é uma característica típica de gringos provenientes de países desenvolvidos. É algo inerente à cultura deles. Ridícula é nossa atitude ao copiar modelos enlatados para criar manuais abrasileirados. E mais ridículo ainda é aceitar este doutrinamento sem questionar este sistema.

Até mesmo a própria Bíblia, se não for experimentada, torna-se apenas um manual de conduta incapaz de produzir bons frutos. Ela própria afirma que “a letra mata, mas o Espírito vivifica” (2 Coríntios 3:6).

Trabalhar não é um problema para mim. Problema é ter horário pra chegar, horário pra sair e ficar preso dentro de um ambiente totalmente penitenciária durante 8 horas diárias. Problema é ter que almoçar no “comeu-morreu” próximo por que seu horário de trabalho impede que seja possível ir para casa. Então deparamos com dois tipos de pessoas apenas: os conformados (que vivem segundo o manual) e os que adoram Prison Break.

Muitos manuais existem para serem desconsiderados.
Muitas regras existem para serem quebradas.

Com medo de errar, muita gente se acomoda sem fazer absolutamente nada.
Não foi “fazendo nada” que as realidades foram transformadas no passado. E com certeza não será diferente no futuro.

Manual de Instruções

Macarronada

Um dos momentos mais legais do dia é quando minha sobrinha (que atualmente tem 4 anos de idade) sobre as escadas de onde trabalho, mesmo que seja para conversar pouco mais de uns 2 minutos comigo.

The Spaghetti Incident

Como é algo natural de uma criança, mexe e pergunta sobre tudo. E qualquer detalhe que tenha mudado desde a última vez que ela esteve aqui, chama a atenção como se fosse um luminoso em Las Vegas.

Ontem ela percebeu que havia um disco de vinil na prateleira que fica atrás de minha cadeira. É o disco The Spaghetti Incident do finado Guns n´ Roses (considerado o último disco da banda). Me lembro claramente da reação de meus pais quando este disco foi lançado em 1993, quando sua capa considerada nojenta e agressiva, se encontrava em destaque nas prateleiras do Carrefour. Na época, esta capa foi motivo de conversas até mesmo na escola. Naturalmente me deixei levar pelos comentários do tipo “nossaaaa… é um monte de minhocas! ou um cérebro em pedaços! ou tripas de um ser humano!”. Minha sobrinha apenas disse:

- O que é aquele macarrão?
- É um disco.
- Disco de que?
- Quando eu tinha seu tamanho, não existia CD. Então as músicas eram gravadas em discos grandes como este.
- Que legal! Põe pra tocar aí.
- Não dá. Não tem onde por isso no meu computador.
- Por que não?
(…)

Peguei o disco e mostrei a ela, que com olhos atentos, parecia contemplar um objeto vindo do espaço. Ofereci a ela então ouvir as músicas do disco que possuo também em MP3. Ao ouvir, ela emendou:

- Música bonita. Dá até pra dormir.
- Essa música tocou no meu casamento.

Fiquei intrigado sobre como os olhos de uma criança não são rápidos a julgar-condenar-executar sentenças sobre o mundo que as cerca. Torna-se compreensível a intenção das palavras de Cristo ao afirmar que teríamos que nos tornar como crianças para podermos entrar no Reino.

A malícia, a maldade e todas as outras coisas que simplesmente estão além do que elas realmente SÃO, demonstram ser pura perda de tempo. Gostaria de entender por que consideramos que “malícia” está mais associada à palavra “maturidade” do que “prudência”.

Em meus ouvidos, ser malicioso soa como “antecipar mentiras, através da arte de mentir”. Enquanto que ser prudente é provar a veracidade de todas as coisas, quer sejam mentiras, quer sejam verdades.

Como podemos ensinar a uma criança sobre maturidade se nós mesmos muitas vezes nos deixamos contaminar por valores distorcidos? Talvez, se enfatizássemos o ensino da prudência, haveria equilíbrio entre o aprender e o ensinar, de modo que a “escola” da vida se tornasse como uma brincadeira infantil: intensa, sincera e divertida.

O problema é que nem todos ainda se divertem com o que é simples e puro. Preferem se considerar “adultos”, fechando os olhos para o que apenas as crianças podem ver. A única conclusão a que consigo chegar é que quanto mais o tempo passa, menos queremos enxergar. E ainda tentamos pressionar as crianças para passarem pelo funil a que fomos submetidos, como se isto fosse garantia de uma vida agradável e bem sucedida.

Afinal, o que é ser bem sucedido? Não seria apenas uma maneira de enxergar o mundo? Pra me deixar satisfeito, basta um prato de macarronada.

Liderança

Uma liderança baseada em afirmações, gera pessoas obedientes. Uma liderança baseada em questionamentos, gera pessoas que pensam.