Teologia Gourmet

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O processo de “gourmetização” das coisas parece ser um caminho irreversível. Tudo que era bom, agora possui uma versão cheia de firulas, com consistência inferior e preço exorbitante. E assim também está acontecendo com a teologia. A sistematização do conhecimento do homem a respeito do “divino” passa pelo ruído do interesse social. E, segundo a “teoria do caos”, quanto maior a precisão em se afirmar alguma coisa, mais ruído e interferência são gerados naquilo que se tenta observar.

A teologia negra é a bola do momento. Daqui  pouco vem a teologia gay, a teologia feminista, a dos deficientes físicos, dos doentes terminais, dos com doenças congênitas… tudo conforme o freguês deseja. Joga-se fora 2 mil anos de construção do pensamento e de repente a única coisa que importa é o olhar do “oprimido”. Coloquei a palavra oprimido entre aspas, porque dificilmente encontraremos na história algum povo que não tenha sofrido sua parcela de opressão. Das ditaduras militares, ao extermínio étnico, à manutenção da desigualdade social… todos fomos prejudicados em alguma coisa por alguém.

Se o pressuposto de que interpretar a Escritura a partir do ponto de vista social do negro oprimido for válido, abre-se um precedente para que todo tipo de interpretação seja feita. A leitura da mulher, a leitura do gay, a leitura do ateu, a leitura do pedófilo, a leitura do criminoso… e também a leitura do evangélico.

O mínimo de honestidade intelectual por parte de quem se arrisca a interpretar um texto respeita as regras fundamentais da hermenêutica (a ciência da interpretação). Isto é o que dá coerência na leitura para que encontremos o SENTIDO que foi desejado ser transmitido pelo autor do texto, face às percepções antropológicas e sociológicas da época. E não, não importa o que você acha, pensa ou sente. Se eu quisesse saber o que você pensa, estaria lendo uma biografia sua e não as Sagradas Escrituras.

O texto da Escritura foi compilado e endossado pela tradição da Igreja Cristã. Ele não é um manual mágico que caiu do céu e que pode se compreendido conforme a vontade de cada um. É a tradição que justifica a canonicidade do texto, enquanto o texto fundamenta a tradição da Igreja. Alguns podem dizer “ah, mas isso é argumentar em círculos”. Sim. Realmente é. Por isso a fé NA ESCRITURA e também NA TRADIÇÃO DA IGREJA são valores inalienáveis para que alguém possa se afirmar discípulo de Jesus.

Simpatizar com as coisas que Jesus disse, mas reinterpretando os textos conforme suas conveniências, torna você um inimigo de Cristo. Foi exatamente isto que o sinédrio tentou fazer com Jesus: distorcer seus ensinamentos. Relativizar as verdades da Escritura, questionando inclusive a dimensão da obra de redenção realizada na Cruz, torna você no próprio anticristo (1 João 4:2).

Se não considera a sacralidade da Escritura como relevante, por que perde tempo com ela? E se a considera, por que não respeita a lógica racional em sua busca pelo sentido adequado? Interpretar a Escritura ao seu bel prazer, não apenas é uma versão gourmetizada para agradar os que buscam o que satisfaz seu paladar, como é o mesmo erro cometido pelos neopentecostais ao utilizarem os textos sagrados de maneira alegórica para manipularem pessoas.

Aprenda a separar o “eu acho” do “a Palavra de Deus diz”. E na dúvida, fique com a ortodoxia. O “preço” de tudo que é gourmetizado, definitivamente não vale a pena.

“E disse aos discípulos: É impossível que não venham escândalos, mas ai daquele por quem vierem! Melhor lhe fora que lhe pusessem ao pescoço uma mó de atafona, e fosse lançado ao mar, do que fazer tropeçar um destes pequenos.” (Lucas 17:1-2)

Ariovaldo Jr

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7 Resultados

  1. Fernanda disse:

    Excelente texto… me fez pensar e repensar … Obrigada Ari

  2. MAICON disse:

    valeu!

  3. Denys disse:

    Percebe que nada Gourmetizado de fato nos preenche? Isso também dá pra trazer para a teologia. É a torrada com maionese e cheiro verde.

  4. Thyago Garcia disse:

    Meu Deus, excelente trabalho.

  5. Douglas disse:

    Bem purai !!!

  6. Elcio Fonseca disse:

    Ariovaldo, Ariovaldo…. Amigos, não se percam pela aparência (nem do autor, nem do texto). Estamos diante de um pensador. E dos bons.

  7. Victor Lucas disse:

    Esse texto me traz esperança do evangelho genuíno ainda ser propagado. Sem gourmet.

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