Longe

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Tenho memória emocional curta. Não sinto nada muito distante e preciso me aproximar de verdade de alguém para sentir o que este alguém sente. Queria fingir que não sei de onde vem esta insensibilidade que não muda em mim, mas conheço muito bem minha genética. Não quero culpar meus antepassados. Somos todos vítimas do mesmo destino. Homens que se isolam do universo que os cerca e que optam por fingir que só existe o mundinho onde eles se descobriram “bons”. 

Quando converso com um dos perdidos nas ruas, sei perfeitamente como falar de um Reino que está entre nós e que é preciso um pouquinho de fé para percebê-lo. Mas no tocante ao resto das razões pelas quais levantamos todos os dias, empreendemos coisas ou simplesmente trabalhamos para ganhar dinheiro, confesso que sou quase evangelizado pelo que nada tem. Quem nada possui, nada tem a perder. Minha ambição é saber qual deveria ser minha ambição.

No olho do furação, quando tudo está comprometido e meus nervos são provados, eu me saio muito bem. Fui forjado pelos problemas dos outros, pelas desgraças da vida e pela crise daquele que só precisa ouvir uma mensagem da parte do Criador. Mas eu mesmo me sinto meio Jeremias, lamentando inutilmente minhas mazelas. Ou Jonas, tentando me esconder e sendo arrastado para o lugar em que devo me dirigir.

Não há beleza no que sei dizer. E nem sei explicar pras pessoas como se harmonizam em mim a certeza da paz que excede todo o entendimento com o desespero de ser humano demais.

Os abraços triviais já não contam. São dados por obrigação.

Quero de volta a surpresa. Ou a capacidade de perceber o quão surpreendente o trivial deveria ser.

Ariovaldo Jr
26/12/2015

 

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2 Resultados

  1. Naísia disse:

    Provavelmente, com esse texto, você só quis se expressar, pastor. Mas causou gratidão, também. Obrigada por compartilhar. Isso também é um dom.

  2. Alan disse:

    É que a gente já nasce sendo envolvido em plástico. E cresce assim. No dia em que a gente descobre que por baixo e ele existe carne, a gente não aguenta mais viver esfregando plástico no plástico. A gente quer a carne lá de baixo, só que meio mundo tá viciado nesse plástico maldito e por vezes, nem se dá conta de que são carne. Eu descobri a carne em mim. Tomei nojo do plástico também. You’re not alone.

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