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Inevitável

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Ontem eu recebi a visita de um amigo que veio da Guiana Francesa (Robson é o seu nome) e resolveu passar uns tempos em Uberlândia. Depois de cerca de 50 minutos de conversa, meu trampo iria fechar e eu perguntei como ele iria atravessar a cidade inteira até a sua “casa”. Como a resposta foi a que eu já esperava (a pé), decidi caminhar empurrando minha bicicleta pra gente por a conversa em dia.

Eu pedalo 10.300 metros pra chegar até minha casa diariamente. E faço este trajeto em cerca de 30 minutos. Mas pra caminhar até pouco mais da metade deste trajeto, demoramos em torno de 1 hora. Claro que a pressa não era muita. Mas caminhar trouxe a surpresa de encontrar pessoas nas ruas, tornando impossível não parar pra trocar meia dúzia de palavras.

Quando me despedi do Robson, pedalei o restante do trajeto. Mas quando faltava menos de 1 Km pra minha casa, desaba o maior temporal. Como não sou muito fã de molhar meu tênis, resolvi me esconder debaixo do enorme toldo de um mercadinho de bairro. Até pensei na possibilidade de comprar algo para beber, mas lá não aceitava nenhum cartão.

Preso por mais de 1 hora debaixo daquele toldo, tornou-se inevitável conversar com as pessoas. Não. Eu não fiz esforço algum. Eu nem tenho a cara mais simpática do mundo. Mas algumas coisas na nossa vida mexem tanto com a curiosidade alheia, que as pessoas naturalmente procuram o diálogo.

– Quantos quilômetros você pedala com essa bicicleta?
– Vinte por dia. Dez pra ir, dez pra voltar.
– Vixa! Bastante. Mas você é que está certo.
– Tento cuidar um pouco da saúde, economizo gasolina e ainda me divirto. Além de que se eu resolver mudar o caminho ou parar pra ver alguma coisa, não tem aquela crise de “onde vou estacionar”.

Esse é apenas o começo da conversa. Mas que terminou me deixando consciente de que aquele homem se mudou pra Uberlândia em 1980, trabalhou na Cemig a vida toda, aposentou e está tentando rever o valor de sua aposentadoria na justiça, foi casado e teve filhos, se envolveu com drogas, gastou tudo que juntou a vida toda, foi abandonado pela esposa, perdeu o contato com os filhos, consumiu prostituição no atacado, ficou feliz quando um dos filhos voltou a morar com ele e está muito satisfeito com o fato de seu filho não dar trabalho por ser “evangélico”. Até que recebi a tal pergunta:

– Você é evangélico também?

Não importa o que façamos. Nem onde vamos. Algumas coisas nunca mudam. As pedras estão clamando. E até eu, que nem tenho um estereótipo muito sociável, não sou capaz de escapar desta busca insana por um pouco daquilo que é o melhor que Deus criou na humanidade: a capacidade de se relacionar com alguém, ainda que este seja apenas um completo estranho.

Publicado originalmente no meu Tumblr

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6 Resultados

  1. Isabela disse:

    Adooorei! ^^

  2. Renan disse:

    massa o texto ari abraxxx

  3. Anibal disse:

    Excelente texto!!

  4. ronaldo costa disse:

    bençao demais Ari (se é que me permites que o chame assim! rsrs) esse é o papo mesmo..tem haver com Salmo 4.6, as pessoas perguntam quem ira lhe mostra a resposta e a resposta sera encontrada no brilho de Cristo em nosso rosto..vc é bencao na minha vida Pr.

  5. Eto disse:

    Incrivel! tremendo!

  6. porrada, mtoo bom mesmo . revelçÀO DO cotidiano

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