Autoridade e governo

O apóstolo Paulo enfatiza no livro de Romanos, especificamente no capítulo 13, a importância de que toda alma esteja sujeita às autoridades. E completa, de maneira curta e grossa que, para tristeza da maioria de nós, TODA autoridade provém de Deus. O propósito deste artigo é divagar sobre como este conceito de autoridade se dá na prática e, como deveríamos conceber tal autoridade para preservarmos a coerência de nosso discurso ao afirmarmos que somos “cristãos.

A figura de Jesus, enquanto Deus encarnado, representa o auge do modelo de autoridade para a sua então recém fundada Igreja. Sua autoridade se dá por influência, jamais ultrapassando a liberdade concedida por cada um nas relações individuais durante os 3 anos de seu ministério. Obviamente o conceito desta liderança que necessita de esforço para conquistar sua autoridade, agrada imediatamente a qualquer um. Porém a grande dificuldade é o quanto este modelo depende incondicionalmente da disposição das pessoas em submeter-se. Até mesmo Jesus foi confrontado por uma geração de rebeldes, bem armados e preparados com palavras que se tornaram muito comuns em nossos dias. Palavras de auto-defesa e que militam em favor de nossos próprios interesses.

Em tempos cada vez mais conturbados, torna-se fácil que digamos que a autoridade por influência é cativada dentro do ambiente do relacionamento, sendo necessário que haja disposição mútua no sentido de ser criado um ambiente de convívio constante e íntimo. Porém, esta linha de raciocínio soa como contraditória quando o contexto relacional de Jesus e seus discípulos é analisado. Claramente o texto bíblico enfatiza o quanto Jesus dedicou seu tempo a caminhar com os 12. Porém também é evidente no texto que, cada um dos 12 homens teve que renunciar a seus interesses em favor de fazerem parte do grupo. Não foi o “líder” que precisou passar tempo pescando junto com Pedro e André, mas exatamente o contrário. A submissão à autoridade de Jesus se deu primeiramente na atitude dos pescadores em encontrar tempo em sua agenda para se aproximarem de seu líder.

Um dos maiores problemas de todos nós é a dualidade entre a compreensão da importância de submetermos nossa vida a outros e a luta em defesa pelos nossos próprios interesses. Na maioria das vezes a figura do líder que nos agrada é também aquele que é idealizado pela conveniência. Pessoas buscam líderes que possam ser seus reféns. Sempre preferimos aqueles que lutam junto conosco em favor de nossas causas pessoais. E que não nos confrontem com palavras que sejam desagradáveis. Líderes devem pensar sempre o “bem”; e devem ser substituídos quanto não atendem às nossas necessidades. Um verdadeiro pseudo-evangelho self-service.

Curiosamente, a figura do “rei” é enfatizada por Paulo em sua carta a Timóteo. E é diretamente associada ao mesmo discurso acerca da autoridade e necessidade de submissão. Porém é importante destacar que rei não era eleito democraticamente; não podia ser destituído por desagrado de seus súditos; e sua autoridade possuía duração vitalícia.

O apóstolo Paulo insiste que a verdade absoluta é que não há escolha. E provavelmente a grande confusão de nossa geração seja com relação aos conceitos de “autoridade espiritual”, “governo” e “sacerdócio universal”. De fato somos todos sacerdotes e co-pastores uns dos outros. Mas a autoridade espiritual só se dá dentro do ambiente da submissão voluntária. Já o governo, é a mistura de todos estes elementos. Os que governam são sacerdotes (como todos os demais), levantados como autoridade espiritual (daqueles que se submetem), com o propósito de proporcionar os ajustes necessários para que o corpo viva de maneira coordenada.

Fora da coordenação do governo, ou trata-se de um câncer, ou de outro corpo.
E submissão parcial é algo que soa altamente incoerente no contexto do evangelho. Ou somos de Cristo, com todos os requisitos e esforços, ou não.

Ou fazermos parte do corpo, devidamente organizado e ajustado, ou não.

E quem considera que seus problemas são com o ambiente institucional, que se mudem para encontrar um ambiente mais propício e saudável. E, depois de alguns anos, entrem para o grupo do qual eu faço parte, dos que sabem que todas as igrejas são iguais, afinal há uma só “Igreja”. O que realmente muda é a disposição de nosso coração.

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