Vandalismo necessário

Manutenção da situação. Invariavelmente este é o objetivo das ações daqueles que estão no controle. Se uma planilha provar que algo vai bem, então seu conteúdo é mais valioso que a bíblia. Os números nunca mentem. Pessoas mentem.

Me pergunto se algumas demandas que criamos “em nome de Deus” são realmente a vontade dEle. O empreendedorismo eclesiástico toma uma forma tão assustadora em nosso tempo, que foi esquecido completamente o sentido de ser igreja sem visar lucro. E lucro não é apenas capital monetário, ou como dizem os especialistas em igrejas, “lã”. Lucro é principalmente “ovelhas”. Pois elas darão lã hoje, amanhã e sempre. Por isso tornou-se conveniente chamar de “ministério” toda atividade de fins exclusivamente comerciais. Ovelhas são controláveis. Não possuem direitos (nem trabalhistas) e acreditam cegamente que o serviço “ministerial” é necessariamente o mesmo que servir a Deus.

Não questiono a salvação daqueles que conheceram o evangelho em meio às falcatruas impiedosas dos administradores eclesiásticos. Deus tem um senso de humor tão incrível, que continua fazendo minar água das pedras. Mas obviamente, boa parte das tais pedras ficarão do lado de fora no reino vindouro. Nem é preciso ser tão inteligente para perceber isto. E os frutos têm revelado a natureza das árvores que o produziram. Já percebeu a dificuldade em lidar com as novas gerações? São apáticos e incapazes de questionar as mínimas coisas.

A igreja tem perdido o sentido de ser. Seu atributo “orgânico” tem sido substituído pelo manual “pequenas igrejas, grandes negócios”. Finanças são tratadas sempre de maneira contraditória. Por exemplo… ou instituições igrejeiras funcionam como supermercados, centralizando as finanças na sede das organizações; ou funcionam como franquias, centralizando a marca e o controle mercadológico, mas fazendo total separação entre as palavras DINHEIRO e MISERICÓRDIA. Afinal, cada um que viva segundo a lã que foi capaz de adquirir. Que importa se meu “irmão” veste uma sunga de lã (pois foi o que deu para coser) enquanto eu vivo com finos trajes? Que importa se uns podem usufruir do convívio da alta sociedade, enquanto outros sofrem nas filas dos hospitais públicos? Faz de conta que foi Deus que quis assim.

Fico aborrecido quando as pessoas que percebem que estas situações são inerentes ao modo contemporâneo de ser igreja evangélica, pensam estar descobrindo algo que eu mesmo ainda não sabia. Sinto como se minha inteligência estivesse sendo subestimada. Como se estivessem me chamando de BURRO ou de insensato e cúmplice dos erros estabelecidos.

Antigamente, era fácil pegar em pedras e apedrejar com toda fúria a primeira vidraça que aparecesse em minha frente. Mas os tempos mudam. A maturidade nos ensina que é preciso tomar cuidado com o estrago provocado pelos cacos de vidro. A revolução é o caminho para redenção do oprimido mas, para que isto faça sentido, é preciso conservar a vida do que será liberto. Mudanças que deixem corpos pelo caminho, necessariamente são o caminho errado.

Conhecer o outro lado também completa nossas convicções. Assim como toda história é baseada em um ponto de vista, torna-se imprescindível conhecer o outro lado antes de começar a atirar pedras. Obviamente tomando os devidos cuidados para que a corrupção do hábito não cauterize a ousadia em defender a verdade.

Estar do outro lado da vidraça não diminui a vontade de quebrá-la. O remanescente de Deus permanece firme e com sangue nos olhos.

Talvez tudo isso que citei seja apenas devaneios de alguém que apertou o ALT F4 no programa da vida. Ou talvez seja a realidade descarada ao seu lado, propositalmente ignorada pela maioria.

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5 Resultados

  1. carlao disse:

    Triste… somos numeros, nao somos vidas, somos os que temos e principalmente o que damos…

  2. Herbert disse:

    Não sei se é mito ou realidade, mas ja ouvi falar que com um som muito alto e numa frequencia precisa, é possível fazer com que o vidro se quebre.
    Continuemos tentando quebrar essa vidraça com nossas vozes.Tenho certeza que se alcançarmos o volume da Verdade do Evangelho e a frequência do Amor de Cristo(em nós), a vidraça racha e um dia quebra de vez!!!
    Abraços e parabéns pelos textos.

  3. Rodrigo veiga disse:

    Muito feliz sua observação de que o caminho de uma revolução necessariamente deve ser a redenção (vida) e não a morte.
    Apenas para nos lembrar: nossa arma “mais letal” é o AMOR!

  4. Avelar Jr. disse:

    Ariovaldo,

    Adorei seu texto. Excelente.
    Concordo plenamente. Muito prático. Está entre os textos alheios que eu gostaria de ter escrito.

    Grande abraço!

    PS: Ah, pus um link pro seu blog também lá no meu. ;)

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