Para não morrer de tédio

Vejo as pessoas cansadas e exaustas. Mas não as consigo compreender. Como pessoas podem permitir a si mesmas dominar-se pelas fadigas da vida? Hoje tenho 30 anos. Mas ainda vivo na angústia infantil do “mais”. Como uma criança que aproveita cada momento sem preocupar-se com o amanhã. Fazendo questão muitas vezes de apagar da memória o ontem, afinal ele já não existe mais. Parece que esqueceram de me avisar quando estarei velho. Quando devo começar a me preocupar com as futilidades desta vida. No momento não tenho tempo e nem estômago para isto.

Minha angústia é provocada pelas coisas deste sistema repetitivo. Entra e sai semana, sempre a mesma coisa. Rotina. Odeio isso. Eu seria um sério candidato ao suicídio, caso isto fizesse sentido, parecesse divertido ou achasse que tenho direitos sobre minha existência. Se eu morasse na Europa, encheria a cara com álcool e acenderia um cigarro na igreja. E fingiríamos que tudo está bem.

Minha angústia é por que embora meu corpo esteja cansado das atividades rotineiras a que estou submetido, me sinto como o viciado que luta para abster-se de seu vício. Preciso de emoção diária. Preciso de mais.

Peço encarecidamente que os super-crentes guardem para si os conselhos do tipo “no Senhor há alívio para sua angústia”. Claro que eu sei disto. Mas se a responsabilidade de me entorpecer fosse exclusivamente divina, “Eles” já teriam me levado daqui. Mas se permaneço neste estado de não-morte, deve haver propósitos provisoriamente obscuros. Quem sabe seja chamar a SUA atenção para a responsabilidade que tem em aliviar o meu tédio? Quem sabe há algo mais divertido ali à frente. Adoro o jeito que “Eles” fazem as coisas. Com certeza sabem se divertir ao extremo.

Aliás, preciso me divertir também. Perder a rotina que a ditadura dos compromissos obrigou meu relógio biológico a se acostumar. Quem sabe um violão, uma fogueira e pessoas estranhas, com suas conversas estranhas. Talvez problemas novos, diferentes da nossa burocracia usual.

Tenho saudades das pessoas de verdade, com problemas de verdade. Aqueles que, embora eventualmente compartilhem seus problemas, não esperam que nós resolvamos nada.

Compreendo a compulsão do viciado. Entendo o tamanho de sua busca e o espaço a ser preenchido em si mesmo. Cocaína, maconha, crack… qual a diferença? Intensidades diferentes para anestesiar a mesma dor.

Meu humor muitas vezes oscila entre euforia intensa e tédio depressivo e mortal. Só que parece que estou à parte de mim mesmo. Olho para todos estes sentimentos e ainda consigo achar graça nisso tudo.

Pra não morrer de tédio, que tal derramarmos um pouco do próprio sangue em favor dos outros?
Que tal gastarmos todo nosso dinheiro e tempo com os interesses de completos estranhos?
Que você acha de dedicar uma vida toda à busca das pessoas de verdade?

Eu sei que existe mais além do nosso mundo “cristão”. Há pessoas desesperadas, vivendo angústias inferiores às nossas. Nem precisamos fingir que está tudo bem. Afinal, nem sempre está. Deveríamos aplicar mais ênfase em nossa esperança de que NO FINAL, tudo dará certo. Por enquanto, podemos nos despir completamente de nossas certezas para que outros se identifiquem com nossa humanidade. Podemos rir juntos. E de vez em quando chorar, só pra variar.

Você já viu uma pessoa de verdade hoje?

Mendigo

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1 Resultado

  1. Débora Laís disse:


    espero que nunca te falte inspiração pra escrever palavras assim, pastor :) Deus te abençoe.

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