Ensaio sobre por que devo me tornar um fora-da-lei

Igrejas, TVs, jornais…

Tive o desprazer de folhear o pobre jornal da cidade de Uberlândia. Dá pra imaginar a decadência de um jornal único numa cidade com mais de 600 mil habitantes? O nível editorial é inferior a 99% dos blogs que leio rotineiramente na internet. Mas de todas, a sessão de “cartas do leitor” é minha parte menos preferida. Revela claramente a ignorância dos professores, bacharéis de direito, aposentados e comerciantes que, insistentemente, enviam e-mails com comentários que beiram o ridículo.

Ontem, conversando com minha irmã, falávamos sobre as pessoas “de verdade”, que estão diluídas e apagadas em meio às multidões. Afirmava que passou momentaneamente por sua cabeça a possibilidade de um dia se candidatar a algo para, quem sabe, fazer mais por estas pessoas.

Confesso que considerei isto uma ótima motivação. Mas será possível mudar as regras do jogo, participando dele? Às vezes fico em dúvida sobre se estamos jogando Ludo ou Poker. Parece que alguns podem mentir, enquanto outros são punidos severamente caso tentem fazê-lo.

Igrejas, TVs, jornais… qual a diferença? Há milhares de consumidores de suas linhas editoriais enquanto poucos possuem a autonomia de criar temas. E independente da motivação destes “redatores”, é preciso tomar muito cuidado para não tocarem em algum ponto sensível demais, que ofenderia os proprietários dos meios de comunicação. Danem-se as pessoas de verdade e suas necessidades reais. O que importa mesmo é oferecer entretenimento, comprovadamente a melhor ferramenta de controle já inventada.

Um dia uma costureira negra teve coragem de não se levantar no ônibus para que um branco se sentasse. Ela foi presa,  julgada e condenada por sua desobediência civil. Mas sua atitude “criminosa” deflagrou uma série de protestos que culminou com o fim da preferência de assentos. Motivados com a atitude da humilde costureira, Martin Luther King Jr mobilizou um boicote geral ao transporte público. Aquela mulher ousou quebrar as regras, por que se cansou de ter sua realidade decidida por dados viciados. Ela fez pelas pessoas “de verdade” mais do que a maioria de nós irá fazer em toda a vida, ora confrontando, ora contornando as regras estabelecidas.

Quero reaprender a pensar fora do quadrado, fora das regras, fora dos mandamentos, fora das profecias e principalmente fora da lei. Quero uma vacina que me imunize das opiniões “editoriais” interesseiras.

E espero ansiosamente morrer com a bala que foi preparada para mim.

Rosa Parks

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2 Resultados

  1. Se descobrir essa vacina divide comigo…

  2. Vanessa Carlos disse:

    Não existe vacina, existem lacunas, pequenas, quase imperceptíveis que por mais contraditório que pareça, são suficientes para passar elefantes. É nadar contra a maré, mas para os fortes e os sortudos dá sim para sair do lugar. Eu não vejo grande mudanças, mas pequenas. E o pouco é melhor que o nada. Meu medo é me anestesiar, mas como em meio a tantas surpresas. Então, o que podemos fazer e viver de forma limpa e conversar daqui 10 anos para saber o balanço disso tudo.

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